TV Escola: construindo um caso de sucesso
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de março de 1997
Paulo Renato Souza 
Um dos grandes desafios da gestão educacional de nossos tempos é introduzir na escola as novas tecnologias que este final de século vem tornando cada vez mais presentes em nosso dia-a-dia. Parece haver consenso de que o êxito no casamento entre educação e os modernos recursos da comunicação e da informática pode proporcionar saltos de qualidade na educação.
O desafio passa a ter um significado especial para nosso país, pois permitiria reduzir as grandes diferenças que nos separam hoje dos sistemas educacionais dos países ricos. O tema não é trivial, pois até bem pouco, mesmo no mundo desenvolvido, constavam-se com poucos casos de sucesso no uso das novas tecnologias na educação. Hoje, já se acumulam experiências exitosas em número suficiente para apontar o caminho a seguir.
Neste sentido, desde o início do governo do presidente Fernando Henrique traçamos uma estratégia de médio prazo que contemplou, inicialmente, o uso da televisão como recurso para a atualização de professores e para o apoio ao seu trabalho na sala de aula. O próximo passo será a introdução do computador nas escolas públicas de primeiro e segundo graus. Trata-se entretanto de dois programas totalmente distintos em seus objetivo, abrangência e metodologia de implantação. Referir-me-ei hoje apenas ao Programa TV Escola.
O objetivo do Programa TV Escola é o treinamento e a atualização de professores do ensino fundamental. Programas com objetivos semelhantes vêm sendo implantados no Canadá e na Inglaterra, iniciados pouco tempo antes da experiência brasileira.
Quis o governo federal oferecer a todos os sistemas de ensino, estaduais e municipais, um material de apoio à escola com qualidade de primeiro mundo. Toda a produção é terceirizada, sendo boa parte da programação adquirida no exterior e o restante produzido em nosso país, pelas TVs educativas e por universidades. A programação é acompanhada por textos de apoio e uma revista bimestral informa, com antecedência, a programação diária, de 3 horas, que é repetida 4 vezes a partir das sete horas, de segunda a sexta-feira.
A única forma de atingir o Brasil todo, desde as populações isoladas da Amazônia até as regiões urbanas do Sudeste e do Sul, sem dúvida era o uso do satélite BRASILSAT, ocupando um espaço disponível para o governo e até então ocioso. A implantação de um programa dessa envergadura, em um tempo tão curto, foi possível graças ao domínio que temos dessa tecnolgia de comunicação. O custo do programa pode ser considerado baixo face a seus objetivos e alcance. Assim, para a aquisição de uma antena parabólica convencional, um televisor e um vídeo cassete foram gastos apenas 1.500 por escola. Os recursos foram repassados a todos os Estados e todas as Prefeituras permitindo beneficiar mais de 50.000 escolas - todas as que possuem mais de 100 alunos - tendo sido investidos, portanto, menos de 80 milhões de reais na montagem da infra-estrutura de transmissão e recepção.
Num programa com estas características não era o caso de desenvolver um amplo programa de treinamento dos professores antes da implantação dos equipamentos. Treiná-los em quê? Em ligar e sintonizar o televisor?
O problema central de um programa como este é o de conquistar o professor para o uso dessa tecnologia na sua atualização e para o enriquecimento de sua prática pedagógica. Este processo somente poderia ser iniciado a partir da instalação massiva dos equipamentos e não antes. A exibição dos programas - apoiados por material impresso - foi o segundo passo. A estratégia definida previa o envolvimento paulatino dos professores. Portanto, o fato de nem todos estarem desde logo utilizando a nova tecnologia não representa o fracasso do programa.
Inovando, mais uma vez, em relação a práticas correntes no setor público, decidiu o Ministério da Educação acompanhar a implantação da TV Escola, realizando uma avaliação trimestral para medir o desempenho do programa. A TV Escola iniciou suas atividades há exatamente um ano - no dia 4 de março de 1996. Três avaliações de acompanhamento foram feitas durante o ano passado.
A análise destes relatórios mostra uma evolução extremamente positiva entre os três momentos de análise. No final do ano, 23 estados já haviam instalado 100 por cento dos equipamentos e nos 4 restantes o percentual era superior a 80 por cento. Em 17 Estados o percentual de escolas que recebiam regularmente o material impresso de apoio era superior a 60 por cento.
Em 23 Escolas onde foi possível colher dados, em média, 57 por cento das Escolas utilizavam a TV Escola e em 43 por cento os programas eram gravados para utilização posterior pelos professores. O relatório aponta os casos de maior êxito justamente nos Estados onde foi feito um esforço maior de motivação dos professores, com o apoio dos Secretários de Educação e da equipe do MEC. Destacam-se os casos do Ceará, Piaui, Rio Grande do Norte, Acre, Rondônia, Distrito Federal, Minas Gerais, São Paulo e Paraná, com percentuais superiores a 60 por cento em ambos quesitos.
Nesta perspectiva, carece de total fundamento a afirmação apressada de que tenha havido desperdício de recursos públicos e de que o programa é um fracasso. Mantida a atual trajetória - corrigindo-se todos os problemas detectados nas avaliações trimestrais - estou certo de que caminhamos para um caso exemplar de êxito na implementação de políticas educacionais inovadoras em nosso país.


