Eduardo Souza Lima
Do Rio
Agência O Globo
Se o Brasil não existisse, alguém teria que inventá-lo. E poucos têm credenciais na TV brasileira para fazê-lo como Guel Arraes e Jorge Furtado. A dupla, reunida há dez anos, ajudou a renovar a desgastada linguagem do veículo, com o uso de elementos da narrativa do cinema. Guel, a partir de ‘Armação Ilimitada’’; Jorge, quando entrou para a sua equipe em ‘Doris para maiores’ e ‘‘Programa Legal’’. Agora eles se debruçam sobre a História do país na minissérie da Rede Globo ‘A invenção do Brasil’, que estréia neste dia 19. O roteiro, editado pela Objetiva, chegou ontem às livrarias.
‘‘A invenção do Brasil’’ parte da história do triângulo amoroso envolvendo o degredado português Diogo Álvares, o Caramuru (interpretado por Selton Mello), e as irmãs índias Paraguassu (Camila Pitanga) e Moema (Débora Secco), filhas de Taparica (Tonico Pereira). Pouco realmente se sabe a respeito dessas figuras históricas; a invenção vem preencher as lacunas.
‘‘A própria História com agá grande se constrói de forma inventada’’, diz Guel. ‘‘Billy Wilder nunca fez filmes de época porque achava ridículo retratar, por exemplo, como um romano paquerava na Roma Antiga. Essa foi a nossa maior preocupação’’.
Para fugir desta armadilha, a dupla recorreu a dois dos escritores que, cada qual ao seu modo, melhor retrataram o país: José de Alencar e Mário de Andrade. ‘‘Iracema tem uma prosódia poética, um português castiço. O Mário criou um linguajar particular, de caráter brasileiro’’, explica Guel. ‘‘Nós unimos estas duas linguagens para criar uma que fosse compreensível hoje’’.
Jorge Furtado lembra a teoria da ‘suspensão da crença’, do pensador italiano Umberto Eco, para avalizar esta opção:
‘‘Nos filmes americanos, tanto os índios como os extraterrestres e os nazistas falam inglês, só que com sotaques estranhos. Você acredita por causa da história’’.
A noção de ‘invenção’ influenciou a dupla até na escolha do elenco.
‘‘ Os românticos inventaram que o índio era o Brasil. No nosso programa ele é o brasileiro’’, conta Guel. ‘‘Por isso Paragassu e Moema não são interpretadas por atrizes índias. Elas são Gabrielas e o seu pai, Macunaíma. O próprio Caramuru não é português, mas outra faceta do brasileiro: um almofadinha de classe média visitando uma favela pela primeira vez’’.
O binômio verdade/mentira é a linha mestra seguida por ‘‘A invenção do Brasil’’. ‘‘A série é um docudrama que procura discutir isso’’, diz Guel. ‘‘Não nos damos conta, mas o quadro da Primeira Missa é do século passado e, portanto, tão real quanto o programa. Ao mesmo tempo, a série é uma aula de História mesmo, onde falamos das suas diversas versões, de forma documental’’.
E foi justamente a mistura entre ficção e documentário que uniu a dupla. Guel voltou ao Brasil nos anos 80, depois de uma temporada na Europa, onde trabalhou com o cineasta francês Jean Rouch, representante da ala documental da Nouvelle Vague:
‘‘Se eu posso dizer que alguém me empurrou para o cinema foi ele. O trabalho dele era justamente esta mistura de ficção e real. Ao mesmo tempo, sua câmera leve não intervinha com a realidade. E quando vi o (curta-metragem) ‘Ilha das flores’ fiquei louco! E resolvi convidar o Jorge para trabalhar comigo’’.
Guel e Jorge são de uma geração de cineastas que testemunhou a agonia e o fim da Embrafilme. Barrados na porta do cinema, encontraram na TV um veículo onde poderiam se expressar.
‘‘Voltei ao Brasil louco para fazer cinema e aceitei fazer TV apenas porque foi o que podia no momento’’, diz Guel. ‘‘Mas já quebrei essa barreira ideológica. Estou na TV há 20 anos e produzo sem parar. Um cineasta da minha geração que tenha feito três filmes neste período é considerado prolífico. Trabalho com o mesmo grupo há dez anos e creio que isso formou um pequeno movimento artístico’’.
Embora se diga satisfeito com o seu trabalho na televisão, Guel não desistiu completamente do cinema. O diretor lança em julho ‘O auto da compadecida’, versão condensada para a tela grande de sua minissérie. ‘‘Não é realista pensar que a TV vá financiar projetos alheios, ela faz os seus próprios produtos. Acho mais fácil apresentar projetos que possam desmembrar-se em vários produtos. ‘O auto da compadecida’ foi estruturado assim. Já ‘A invenção do Brasil’ será mais difícil de adaptar para o cinema por problemas estruturais’’.
Jorge, sócio da produtora Casa de Cinema de Porto Alegre, está às voltas com ‘‘a terrível fase de captação’’ para ‘‘O homem que copiava’’, seu primeiro longa-metragem. Se tudo der certo, ele começa a rodá-lo no ano que vem: ‘‘Mas, na verdade, não vejo diferença entre as linguagens de cinema e TV. São duas mídias interessantes, gosto de experimentar nas duas. Só que nenhuma delas supre individualmente a minha necessidade de contar histórias’’.

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