TV e política - José Genoino
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de agosto de 1998
José Genoino 
Com a revolução dos meios de comunicação todos os aspectos da vida sofrem, de alguma forma, a sua interferência. A política não podia fugir dessa regra. Tudo indica que a interferência da mídia televisiva na política é um fenômeno que veio para ficar. Alguns estudiosos denominam esse fenômeno de videopolítica. É cada vez maior o número de pesquisadores e cientistas sociais que estudam e procuram compreender as implicações e o alcance da influência da tevê sobre a atividade política. As opiniões se dividem. Alguns acham que a tevê, como qualquer outro meio técnico, é algo neutro e os resultados dependerão de como os homens usam esse meio.
Outros, no entanto, manifestam uma preocupação bem mais aguda sobre as interferências negativas do vídeo na vida política. Entre esses está o professor e pesquisador italiano Giovanni Sartori, que traz um pequeno texto sobre o assunto em seu livro Engenharia Constitucional. A primeira hipótese que Sartori sugere é que a tevê produz uma despotencialização da inteligibilidade do processo político. O processo fundamental de inteligibilidade ocorre mediante a leitura e a abstração de textos escritos. A linguagem da tevê são as imagens e os símbolos.
A tevê produziria, assim, não uma compreensão racional, mas uma assimilação emotiva. Isso não significa que ela não influencia escolhas eleitorais. Pelo contrário, é por meio de imagens e símbolos que os especialistas em marketing político procuram orientar as escolhas do eleitorado. Além de interferir emotivamente nas escolhas do eleitorado em detrimento da compreensão racional de programas de governo, propostas e projetos, a mídia televisiva condiciona o próprio comportamento dos políticos.
Sartori sugere que os políticos reagem cada vez menos a fatos reais e cada vez mais a eventos de mídia. Isto é, na agenda dos políticos assume cada vez mais relevância aquilo que aparece no vídeo ou aquele que tende a merecer a sua atenção. Com isso, a política estaria sofrendo uma espécie de virtualização em relação à sua realidade efetiva.
A videopolítica concebe o eleitor não como um agente político, mas como um paciente, um consumidor de imagens que emocionam. Daí os programas políticos de tevê venderem seus candidatos e os temas eleitorais como mercadorias. Se o sistema representativo da república democrática moderna já recusava uma participação mais ativa do cidadão na vida cívica do Estado, a mídia televisiva aprofunda ainda mais a apatia política. No recôndito de seu lar doméstico, o espectador assiste às mensagens políticas na tevê como entretenimento.
Isso talvez esteja a provocar um desaparecimento definitivo da política como fenômeno coletivo. A política torna-se cada vez mais, de um lado, um afazer de uma elite de especialistas e políticos profissionais e, de outro, uma questão de foro íntimo de cada cidadão. Isso coloca um ponto de interrogação sobre a sobrevivência do Estado concebido como espaço público coletivo de uma comunidade.
Sartori não faz um balanço inteiramente negativo sobre a influência da tevê na política. A videopolítica, por exemplo, funciona bem na exposição dos males, erros e omissões dos governantes e na denúncia da corrupção. Nestes aspectos ela tem um alto poder de mobilização da opinião pública. A televisão tem também o mérito de difundir informações para um número muito grande de pessoas. Mas aqui ressalva-se que o tipo de informação que a tevê fornece não é adequado para julgamentos e escolhas criteriosas.
Em suma, se é verdade que a tevê tem uma audiência ampliada, a sua mensagem é superficial, fator que se traduz em desinformação ou em má-informação. Seria justamente por isso que a videopolítica se presta à farsa e ao engano. A rigor, a televisão permite que se mostre tudo: desde aerotrens fantasiosos, até números e gráficos que criarão milhões de empregos. O espectador sempre ficará em dúvida entre a realidade do desemprego e a irrealidade de milhões de empregos. Se o engano for produzido por uma boa técnica, o eleitor tenderá a optar pela irrealidade. Até que ponto o mundo real poderá sustentar o mundo imaginário sem tormentas e turbulências é algo que ainda está para ser demonstrado.
Apesar de alguns benefícios que a televisão agrega à política, não é conveniente obscurecer os muitos prejuízos que ela produz no seu conteúdo. O grave de tudo isso é que se a videopolítica veio para ficar, os políticos e os partidos das mais diversas tendências não têm como fugir de sua lógica. Se ela mobiliza essencialmente emoções e se estas são fáceis de serem manipuladas por técnicas propagandísticas, chega a ser assustador concluir que o mundo caminha, no mínimo, para um empobrecimento político, algo sempre perigoso para a liberdade e para a democracia. Resta saber se os poderosos meios de comunicação podem oferecer alternativas que permitam valorizar os conteúdos ou se essas alternativas só podem ser encontradas fora ou ao lado da mídia.
- JOSÉ GENOÍNO é deputado federal do PT-SP


