O Senado Federal deve votar nesta semana a Medida Provisória que cria a TV Brasil - canal público que ficará subordinado à Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). Com orçamento de R$ 350 milhões e possibilidade de captar patrocínios culturais, a iniciativa é defendida pelo governo como ''forma de enfrentar a visão puramente comercial e concentrada no eixo Rio-São Paulo das emissoras comerciais''.

Por outro lado, a oposição já apelidou a TV Brasil de ''TV Lula'', e critica a contratação de servidores sem concurso e o que considera alinhamento ideológico com o governo federal.

Nesta entrevista, a diretora da EBC, Tereza Cruvinel, diz que o Conselho Curador vai dar independência. Cruvinel disse ainda que a TV Brasil será um canal de caráter público - e não governamental.

Como garantir que a TV Brasil não se transformará numa tv chapa branca?
Há um mecanismo de controle social. A diferença entre a tv estatal, ou governamental, e a pública está aí. A estatal é controlada por um governo, tanto do ponto de vista da gestão e financiamento, quanto do conteúdo. Já a pública tem controle social e participação da sociedade. A TV Brasil é dotada de um conselho curador de 15 membros da sociedade civil, quatro representantes do governos e um representante dos seus servidores. Temos o ex-diretor da Rede Globo, Boni; a Maria da Penha, que é uma mulher emblemática do Brasil, negra, pobre e violentada; o MV Bill; o economista Luiz Gonzaga Beluzzo. Uma composição bastante plural. No futuro, o conselho será renovado mediante consulta. Foram os conselhos curadores que transformaram as tvs governamentais da Europa em públicas. Se o presidente Lula quisesse ter uma tv governamental era só ter deixado como estava e colocado um capacho para criar um aparelho político.

Como será montada a programação?
A que está no ar é fruto da fusão das tvs que foram repassadas para a EBC (TVEs do Rio de Janeiro e Maranhão, e TV Radiobrás). Contruímos uma grade provisória que agregou os conteúdos destas emissoras e alguns programas regionais. Além disso, temos jornalismo e programas de debate. Também temos o DOC TV, uma rede de documentários regionais, e damos ênfase ao melhor do cinema nacional. Na música, a gente vai do sertanejo ao erudito. Queremos a diversidade cultural brasileira na TV Brasil e não apenas a do eixo Rio e São Paulo.

Cada associada vai definir quantas horas terá de transmissão nacional e local?
Hoje estamos assim, é um processo de construção, mas o ideal é estar em rede com todo mundo transmitindo simultâneamente. Na hora do Repórter Brasil (jornal nacional de 60 minutos), à noite, todas as televisões entram naquele horário, e quando é a programação local elas entram com seu conteúdo.

Haverá correspondentes internacionais?
Estamos enviando um para Angola em março. Queremos ter correspondentes sobretudo nas novas fronteiras das relações do Brasil com o mundo: a África, a América Latina e a Ásia. Nos EUA e Europa também (haverá equipes), mas lá já existe uma cobertura grande por agências internacionais e a tv pública tem que procurar complementar onde está faltando informação.

Haverá TV Brasil no Paraná?O Paraná é um Estado atípico porque não estamos operando em rede com a TV educativa (RTVE), que tem grade própria bem grande, e ainda temos ausência de outras associadas. Mas espero fechar acordos com tvs universitárias e comunitárias do Paraná.

A senhora conhece a polêmica que envolve a RTVE do Paraná e as acusações de uso político pelo governador?
Sim. Pelas informações que leio, ela é governamental. Tenho esperança de que todos os governadores, em algum momento, enviem projetos às Assembléias Legislativas transformando as tvs de natureza governamental em públicas - os de Sergipe e Espírito Santo já o fizeram.

A TV Brasil então não seguiria o modelo da RTVE do Paraná?
Não queria ficar comparando, porque não tenho assistido a RTVE, mas certamente não. O melhor modelo público que a gente tem no Brasil é a Cultura da São Paulo. Agora, estudamos e nos inspiramos em todas as experiências bem sucedidas de tvs públicas no mundo.

E as críticas de que está havendo contratações sem concurso público?
Isso é temporário, precisamos de alguma flexibilidade para implantar o canal - e ainda não temos orçamento próprio. Mas o concurso está na nossa meta. Essa flexibilidade inicial não é a mesma coisa que passar um cheque em branco - como acusa a oposição.

Serviço:
Informações no www.tvbrasil.org.br

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