Muito se tem discutido ultimamente sobre o conteúdo dos programas de televisão. O nível das programações dominicais potencializou essa discussão para toda a sociedade. A população brasileira mostrou-se francamente indignada. E não é de hoje. Em julho - portanto bem antes dessas grosserias televisivas -, pesquisa do IBOPE encomendada pelo Ministério da Justiça indicava que a maioria da população seria contra a censura, mas a favor de algum tipo de controle sobre a programação da TV. Antes ainda dessa pesquisa, em maio deste ano constituímos um grupo de profissionais com a preocupação de discutir a relação entre mídia e comportamento. Este grupo evoluiu desde então e constitui-se no TVer.
O TVer reúne psicólogos, filósofos, advogados, educadores e profissionais da comunicação, com a preocupação de analisar e discutir as consequências da TV. Visa embasar esta já existente consciência crítica dos telespectadores. A preocupação básica do grupo é a garantia do respeito à cidadania na programação da TV. Não é pouco. E pelo que temos visto na televisão, desde a criação do grupo, há um duro trabalho pela frente. Entretanto, muitos têm confundido a iniciativa do grupo como forma de volta à censura. Não é nada disso. Demoramos muito para conquistar o direito de expor nosso pensamento livremente e ninguém do grupo tem saudade da censura.
Mas, exatamente por termos vivido sob um regime de cerceamento da manifestação do pensamento, parcela da população tem receio de discutir formas de controle social dos meios de comunicação. Existe o medo de dar combustível para aqueles que querem a volta da ditadura e da censura. Infelizmente, com o episódio da prisão do Planet Hemp, o receio de que podemos voltar à época da censura parece que ganhou concretude e mostrou o quanto temos que ficar atentos na defesa das liberdades civis. E mais: em Araraquara aprovou-se, há alguns dias, legislação que proíbe camelôs e bancas de jornal de vender material ‘obsceno’ ou ‘subversivo’. Um vereador justificou a lei como medida preparatória para ‘a volta da censura. Sem contar o prefeito de uma cidade do Paraná, que resolveu proibir por decreto a venda de camisinhas e pílulas anticoncepcionais no município.
São episódios de inquestionável desrespeito às liberdades públicas e merecem nosso total repúdio. O que temos hoje é um monólogo televisivo. A via de comunicação é de mão única. O cidadão é impotente frente ao poderio da mídia. Não tem mecanismos de reivindicar, de reclamar e - mais grave ainda num país com uma população tão carente como a nossa - de se contrapor às influências dos meios de comunicação. Se os donos dos veículos de comunicação têm livre poder de veicular o que querem, temos que reivindicar o poder do cidadão de ter acesso a uma programação de qualidade, com isenção e veracidade na informação que é veiculada.
A censura é tema complexo. Pensamos, comumente, só no poder estatal de interferir na programação. Mas vamos inverter um pouco o ângulo. Quando a informação é manipulada pelo interesse dos donos dos meios des comunicação - comum no Brasil -, também não é forma de censura? Sim. É cerceamento à liberdade de informação, ao direito dos cidadãos de se informar de maneira correta e livre.
E, mesmo sendo esta uma experiência muito comum no País, não temos até agora nenhum órgão de pressão social que faça os meios de comunicação mais éticos e transparentes. O grupo TVer não está exigindo nada das autoridades. Não quer nada de nenhum poder constituído. Quer, isto sim, uma pressão da sociedade. Quer ser um impulsionador desse movimento, referência de discussão e encaminhamento dessas questões. Temos experiências bem-sucedidas em países como Inglaterra, França e Suécia, onde a pressão social tem efeito. Por que não estudar esses exemplos e ver onde é que se encaixam em nossa realidade? O debate, mais do que nunca, está aberto.

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