Turismo político - Maria Lucia Victor Barbosa
Turismo político
Maria Lucia Victor Barbosa
Que pessoas se ponham a viajar a trabalho ou a passeio é normal, e hoje existem muito mais oportunidades de cruzar fronteiras. Isto acontece porque os meios de transporte evoluíram, os negócios estão bem mais diversificados, a globalização permite e estimula a circulação de indivíduos e mercadorias. Além do mais, proliferam congressos inúteis, sinecuras acadêmicas, simpósios sobre o nada, onde um dinheirão é gasto de forma desproporcional ao resultado obtido. Acrescente-se o fato de que o turismo é incrementado através das facilidades oferecidas pelas agências de viagens que vão ao encontro da elevação do padrão de vida das classes médias. Ao mesmo tempo, aumentou a expectativa de vida em todo planeta, e isso faz com que pessoas mais velhas resolvam correr o mundo em busca do tempo perdido, depois de uma vida dedicada a afazeres obrigatórios como estudar, ganhar a vida e sustentar família.
Considerados estes fatores e outros mais que possam existir, entende-se por que hoje as pessoas viajam tanto. Elas podem, precisam ou encontram chances de realizar um daqueles anseios do ser humano: aventurar-se pelo desconhecido, o que significa a promessa implícita da quebra da mesmice, do cotidiano pesado e enfadonho que se abate sem apelação sobre o comum dos mortais.
Mesmo no Brasil, com todas as queixas e choradeiras, nunca se viajou tanto apesar dos preços abusivos cobrados pelos hotéis, do turismo anormalmente caro se comparado com o de outros países. Mesmo assim, viajam ricos e pobres. Uns lotam aviões, outros, ônibus e, principalmente nos feriados, fervilham aeroportos e rodoviárias com um frenético ir e vir interno ou mesmo externo.
Também é natural que homens públicos viajem. Presidentes da República, primeiros-ministros, por exemplo, muitas vezes precisam se ausentar do seu país para concluir tratados, selar acordos, buscar pessoalmente intercâmbios etc. Outros, em cargos elevados, e às vezes não tão importantes, também necessitam algumas vezes deixar seu posto em benefício daqueles a quem servem ou deveriam servir seja no município, no Estado e no País. Mas o que não é natural é a frequência exagerada com que os homens públicos viajam no Brasil. Desse modo, não existem apenas sinecuras acadêmicas, mas abundam as sinecuras políticas. E como as primeiras, as segundas são sustentadas através dos cofres públicos.
Se os detentores de cargos no País viajassem menos, quem sabe mais recursos sobrariam para investimentos prioritários, para obras necessárias, para projetos de cunho social, que são negados mediante a indefectível desculpa de uma hipotética crise e da crônica falta de verbas. Mas diante das viagens sem fim, do turismo político usufruídos pelos donos do poder, pode-se concluir que, quando na administração pública se diz que não há dinheiro, isso quer dizer que não existe dinheiro para determinada necessidade social ou pleito justo, mas que na verdade há sobra de numerário para certas necessidades de lazer que completam as delícias do poder para os que o detêm.
Este triste aspecto de nossa administração pública, que nunca tem como atender o que é vital ou necessário em termos de bem comum por conta da incompetência, do desperdício e do desvirtuamento de recursos, acaba se refletindo na acentuação do contraste social, e não haverá impostos que resolvam a pobreza se não houver um mínimo de moralização na vida pública deste país. Ao mesmo tempo, de nada adiantará culpar algozes artificialmente arquitetados pelo que sofremos. Nem o FMI, nem o neoliberalismo, nem tão pouco o Pato Donald ou o Mickey são culpados por nossos fracassos e mazelas, exceto nós mesmos quando nos deixamos enganar pelos tomadores de decisões. Afinal, quem votou nos Hildebrandos da política que os embale.
Voto e turismo político também fazem lembrar o presidente de honra do PT, que vive zanzando mundo afora obcecado pela idéia de que é um estadista, apesar de não ter nenhum cargo e nem sequer trabalhar. Do Festival de Cinema de Veneza, onde esteve recentemente, ele voou para a França, onde se prepara para o Festival Cinematográfico e Cultural Latino-Americano a se realizar em Biarritz. Neste caso, pode-se perguntar se Lula virou cineasta. Mas a resposta é não. Ele continua socialista e visitou um ministro francês e o primeiro secretário do PS daquele país, François Holande. Quando lhe perguntaram se via semelhança entre os governos de Fernando Henrique Cardoso, no Brasil, e o de Lionel Jospin, na França, Lula respondeu: Jospin está provando que é possível fazer política sem estar subordinado ao neoliberalismo, mas esse não é o caso de Fernando Henrique.
Esta resposta do presidente de honra do PT demonstra que ele é bom de turismo mas ruim de informação, pois conforme divulgado anteriormente por O Estado de S. Paulo, Jospin venceu as eleições com o discurso clássico das esquerdas, mas foi mudando na prática de governo. Hoje, ele mantém a retórica antineoliberal, mas é o primeiro-ministro que mais privatizou na França. E o jornal conclui: De tudo isso fica mais uma vez a lição: só tem chance política a esquerda que se moderniza e aceita o capitalismo que pode não ser o regime ideal, mas não inventaram nada melhor para produzir riqueza. Só a esquerda brasileira não acredita nisto.
Enquanto Lula faz turismo posando de grande homem, Ciro Gomes faz política entre o eleitorado potencial brasileiro. E, quem sabe para compensar a ausência de sua estrela, o PT está veiculando de modo irritante pela TV, de dois em dois segundos no horário nobre, uma estranha e complexa propaganda que calcula o preço de escravos em bois, e depois projeta os juros anuais de hoje sobre os ditos animais. Assim, chega-se a um estranho resultado no qual dois operários valem meio escravo. Nesta toada, bem que a plataforma eleitoral do PT desta vez poderia ter como programa reeditar a escravidão. Regressar à Antiguidade seria, como dizem na gíria, viajar na maionese, mas que combina, combina, com os que, pelo menos em teoria, combatem o neoliberalismo.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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