Turbulências do 2001
Dois meses já se passaram desde que o novo ano, século e milênio da Era Cristã principiou. Nesse período nos foi comunicado que temos o mesmo número de genes de um milho ou apenas mais 50% do que a mosca do feno, que não sei o que é mas me pareceu um inseto insignificante se comparado a minha capacidade de digitar um artigo no computador. A descoberta científica se por um lado fez avançar o conhecimento sobre os mecanismos da vida, por outro demonstrou que o homem ainda está longe de decifrar a escrita de Deus. Afinal, por que nós, seres humanos, funcionamos diferentemente da espiga de milho?
Disseram-nos também que há indícios de vida no planeta Marte, o que não chega a espantar as mentes mais lógicas que, imagino, nunca duvidaram de existir vida no universo além da que prolifera no nosso pequeno Planeta.
O homem mostrou também sua habilidade extraterrestre quando fez descer uma sonda espacial, não aparelhada para tal façanha, num asteróide que vaga pelas vastidões do cosmo em atitude que me pareceu um tanto ameaçadora. Afinal, não foi por causa do choque de uma destas pedras gigantescas que a terra entrou em transe e lá se foram os dinossauros, segundo conhecida hipótese levantada por um grupo de cientistas?
Aliás, nunca consegui entender muito bem porque existe uma obsessão por estes imensos bichos, da parte, sobretudo, dos norte-americanos. A única explicação para tanto fascínio só pode residir no tamanho daqueles animais, porque como o homem tem mania de grandeza, as dimensões avantajadas dos monstros com jeito de dragão podem funcionar até hoje como um símbolo inconsciente de poder que tanto agrada ao ser humano.
No mais, há terremotos sacudindo cidades mundo afora. Desastres aéreos, marítimos e terrestres formando as tragédias do cotidiano diante do público indiferente que as assiste pela televisão. Gente nasce, gente morre. Prossegue a existência com sua diversidade de mágicas boas ou más. E assim caminha a humanidade, que se ainda não se extinguiu deve ser porque há realmente certos poderes superiores que a sustentam.
No continente Brasil, alguns cataclismos políticos expõem entranhas do poder nada bonitas de se ver. Eclodem escândalos e a imprensa regozija-se com o farto material, ora cumprindo seu papel de informar, ora exagerando na leviandade das denúncias que ao infamar destroem para sempre reputações e vidas.
Um dos cataclismos políticos teve origem com as eleições para as presidências da Câmara e do Senado. Na sua amargura por ver eleito seu inimigo político, o senador Jader Barbalho (PMDB-PA), Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) partiu para o ataque em várias frentes, e foi à Procuradoria da República do Distrito Federal para tentar jogar de novo na fogueira o ex-secretário-geral da Presidência da República Eduardo Jorge Caldas Pereira.
Segundo o coronel baiano, sua intenção era atingir o presidente da República, a quem culpa por sua derrota. Pouco importa a ACM se a imagem do Brasil for conspurcada ou se bolsas de valores se ressentirem. Ele quer revanche e se alia a um dos piores inimigos do governo, o procurador Luiz Francisco de Souza.
Imbuído pelo fervor dos inquisidores, Souza tem feito sucesso na mídia que, aliás, parece buscar com uma certa ansiedade exibicionista, talvez para compensar seu estilo de vida quase monacal e sua aparência física que não é propriamente a de um Apolo.
Com ACM, o Torquemada brasileiro não agiu diferente. Gravou as conversas tidas com o senador para passá-las para a imprensa. Depois, numa performance um tanto histriônica, pisou em algumas fitas, quebrando-as, tendo o cuidado, porém, de preservar a que entregou para o Quarto Poder. Este homem com ares de fanático ignora a lei em nome da ideologia, sendo por isso perigoso. Seu tribunal é o de exceção, onde não se julga com base nas leis mas através do arbítrio. Nesse caso emerge o justiceiro e desaparece o juiz isento e imparcial.
Claro que nossa corrupção precisa ser combatida. Mas isso se faz através de dispositivos legais. Infelizmente no Brasil as leis não são bem aplicadas nem com relação ao banditismo. Isso ficou claro nas rebeliões recentemente havidas em presídios de várias cidades de São Paulo, e comandadas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). A onda das rebeliões iniciada no dia 18, teve como causa a transferência de cinco líderes do PCC para a Casa de Custódia. A partir daí o terror foi deflagrado nas penitenciárias paulistas, indicando a falência dos poderes constituídos no tocante à principal função do Estado a segurança. Há um governo paralelo do crime que cresceu sobre a indiferença do próprio governo, que assim chocou o ovo da serpente.
Os motins denunciam também, além das conhecidas causas estruturais e culturais, as distorções do nosso sistema penitenciário, os descalabros que se passam no Judiciário, a falta de prisões, o descumprimento das leis, a omissão da Justiça, a inadequação do Código penal, a falta de uma revisão constitucional, pois a Constituição de 88 foi extremamente condescendente para com os bandidos e omissa e utópica para com os cidadãos de bem.
No momento, diante do PCC, comando do crime que se jacta dos seus armamentos sofisticados, ameaça do alto de sua força e desfruta das comodidades da vida moderna como telefones celulares, não faço coro com o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Marcos Rolim (PT-RS), que cândida ou demagogicamente pede diálogo dos governos com os presos.
No caso do PCC, o diálogo só pode ser feito adequadamente através do Exército, pois às Forças Armadas compete manter a ordem e a paz interna e externa. E ordem e paz não está havendo principalmente nas mais importantes cidades brasileiras, São Paulo e Rio de Janeiro, que se encontram sob a guerra conflagrada pelo império do crime. E assim segue a vida neste início de 2001, pois como disse Riobaldo, o personagem de Guimarães Rosa: Mire e veja o senhor, viver é muito perigoso.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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