Há quem não queira ou não consiga enxergar o óbvio, mas a crise econômica já ameaça o processo que incluiu dezenas de milhões de pessoas no mundo do consumo, um dos maiores avanços que a sociedade brasileira celebrou desde a redemocratização.
Baseado na estabilidade da moeda dos anos 1990 e consolidado com a expansão do mercado de trabalho, com o aumento da renda e do acesso ao crédito na primeira década deste século, o brilho econômico passou a ser simbolizado pela chamada classe C, o meio do caminho entre os pobres e a classe média clássica.
Este contingente maior que a soma da população da Argentina e da Colômbia (mais de 100 milhões de pessoas) é o que mais teme o retrocesso econômico e a ameaça de pobreza, o fantasma que assusta o país após um triênio de crescimento medíocre (2011-2013) e de um 2014 de leve retração.
É esta nação de novos consumidores que está na linha de frente da turbulência que sacode o setor produtivo. A sensação é ainda mais clara neste verão de 2015, quando os aumentos de impostos, da inflação e do desemprego jogaram um balde de água fria nas expectativas de recuperação.
Como esta FOLHA revela em reportagem hoje, a classe C já está pisando no freio e agindo com cautela nas gôndolas. De acordo com pesquisa feita em janeiro pelo Instituto Data Popular, 47% das famílias disseram que estão comprando menos produtos nos supermercados do que compravam há seis meses. O mesmo levantamento mostra também que a expectativa de consumo é baixa: 45% dos entrevistados disseram que devem comprar menos nos próximos seis meses em comparação com o patamar de janeiro.
São números que não devem ser ignorados pela política econômica oficial. Trata-se de um segmento que representa metade da população e que carrega consigo o desejo nacional de ascensão. A baixa no consumo pode aprofundar o desemprego e ameaçar até mesmo o formato da pirâmide social, um dos trunfos explorados pelo governo petista para se reeleger pela terceira vez em novembro.

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