São Paulo - Uma nova classificação para um tipo de tumor formado no tecido muscular traz esperança aos pacientes vítimas de câncer. ‘‘Há três anos, muitos tumores localizados no sistema gástrico eram diagnosticados como leiomioma e considerados benignos pelos especialistas. A descoberta da mutação no gene c-kit, que provoca o crescimento tumoral, permitiu a reclassificação desse tipo de sarcoma como Tumor Estromal Gastrointestinal, GIST’’, explica Paulo Hoff, coordenador do Núcleo de Estudos Clínicos em Câncer do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.
   A descoberta do c-kit não é tão nova, ocorreu em 1998, mas os pacientes vítimas desse tipo de câncer comemoram somente agora o sucesso do tratamento que vem sendo realizado com o ‘‘mesilato de imatinib’’, substância ativa do Glivec (do laboratório Norvatis). ‘‘A expectativa de vida era de alguns meses. Hoje, os pacientes em tratamento respondem bem ao medicamento e levam uma vida normal’’, conta Hoff.
  Entre os especialistas que realizaram a identificação do gene, estão Seiichi Hirota, Koji Isozaki, Yasuhiro Moriyama e Koji Hashimoto, da Universidade de Osaka, no Japão. ‘‘Até 1998, era mais um tumor. Então, Hirota observou que em apenas um exame, o gene c-kit, que nasce em uma célula específica chamada cajal, aparecia como positivo’’, conta Laércio Lourenço, cirurgião e professor adjunto de gastroenterologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A mutação do gene ocorre em uma proteína chamada tirosinaquinase, revelando todo o mecanismo que faz esse tipo de tumor progredir e possibilitando a busca de um inibidor para essa proteína. O Glivec funciona como inibidor da tirosinaquinase.
  ‘‘Há dois anos ainda não existia um medicamento que inibisse o desenvolvimento desse câncer e apenas 2% dos pacientes respondiam à quimioterapia’’, diz Agnaldo Anelli, oncologista do Hospital do Câncer, em São Paulo. Segundo o especialista, antes da reclassificação do GIST, o diagnóstico era confuso. Muitas vezes, o tumor era considerado benigno. ‘‘A retirada do tumor era a única opção. Mas, algum tempo após a cirurgia, o paciente tinha recaída. O tumor retornava com metástase, espalhado pelo organismo.’’
  Outra vantagem com a identificação do c-kit foi calcular uma estimava sobre a incidência de casos no Brasil. ‘‘Antes acreditava-se que era um tumor muito raro, mas hoje estima-se cerca de 1.500 casos por ano no País’’, conta Hoff. Nos Estados Unidos, esse número chega a 5 mil a cada ano. ‘‘A Associação Brasileira de Câncer Gástrico está entregando aos especialistas em todo País um questionário para saber quantos pacientes existem com o GIST de fato’’, revela Lourenço.
  Ingrid Maia, oncologista clínica do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, reforça que a cirurgia continua sendo a melhor opção para o paciente. ‘‘O GIST é muito agressivo e se uma porção microscópia ficar no organismo após a cirurgia, o câncer volta com mais força. Mas a retirada do tumor é o primeiro passo em alguns casos.’’
  A principal localização do GIST é no estômago, representando até 70% dos casos. No intestino delgado, acomete 20% dos pacientes. No cólon e reto, esse tumor atinge cerca de 10% das vítimas e, raramente, o GIST aparece no esôfago. A incidência é maior entre pessoas de 50 e 60 anos de idade, mas aos 30 anos o tumor pode surgir com potencial maligno. Considerado um câncer silencioso, o tumor pode ser descoberto apenas quando produz hemorragia digestiva (observado pelo sangue nas fezes), corromper a mucosa que reveste o órgão atingido, dor e náuseas. Ingrid é cautelosa para afirmar que a cura foi descoberta. ‘‘Ainda é muito cedo. Os tratamentos estão em curso’’.

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