No ano de 1945, eu tinha 4 anos, eu vivia em São Paulo, e hoje tenho uma lembrança, pelo menos, do fim da Segunda Grande Guerra: minha avó Nair lendo o jornal e chorando por causa de umas fotografias de refugiados, anciães, mulheres e, sobretudo, crianças magrinhas e maltratadas. Devo explicar que minha avó, que devia ter uns 50 anos, na época, chorava facilmente, pois era de uma geração em que isso era parte do ser feminino. Mas lembro-me claramente de que o que me pareceu estranho foi vovó chorar por crianças que ela nem conhecia e que viviam em algum lugar mais longínquo do que eu era capaz de imaginar.
É fato que as crianças têm o coração mais duro do que as pessoas mais velhas - especialmente avós nascidas no século passado. Mas havia alguma coisa estranha naquele pranto por gente desconhecida e distante: o que acontecia é que estávamos vivendo a adolescência da era da mídia de massa.
Afinal, não custa lembrar que o rádio só começou a existir, no Brasil, em 1922. A TV é de 1950, mas até os anos 70 era privilégio das elites. E mesmo as revistas e os jornais, embora existentes no século 19, só começaram a ter grandes circulações na virada do século passado.
Antes disso, as pessoas emocionavam-se - e riam ou choravam - com o que viam e viviam. Claro, podiam curtir as emoções de uma história bem contada, ou de uma encenação teatral e - até - derramar fúrtivas lágrimas com a leitura de um romance triste ou de um poema inspirado.
Muito pouca gente emocionou-se com o drama dos jovens amantes de Verona, até que William Shakespeare pusesse sua história no papel. E - depois - as pessoas emocionavam-se com a história de Romeu e Julieta uma a uma, à medida que liam o texto, ou algumas centenas de cada vez, como audiências de circos ou teatros.
O choro de minha avó marca, significativamente, os albores não só da Revolução das Comunicações como de uma era de emoções compartilhadas em massa.
Hoje, a mesma lágrima derramada pela visão de uma criança sofrendo pode ser multiplicada na rotogravura de milhões de exemplares de revistas multicoloridas ou contemplada por bilhões de pessoas ao mesmo tempo, diante das telas dos noticiários de televisão - coisa que o escritor Milan Kundera chegou a descrever como manifestação de um tipo particular de kitsch sentimental.
Não há uma relação estatisticamente lógica entre o que a mídia nos mostra e o que, de fato, ocorre no mundo. No jornal que folheio hoje, por exemplo, o secretário-geral das Nações Unidas, que é africano, queixa-se de que o mundo se condói do destino de milhares de refugiados na Albânia ao mesmo tempo que esquece a sina de milhões de perseguidos - pelos mesmos motivos étnicos - no seu continente. Em parte por serem negros e estarem longe da Europa; em parte porque a mídia não os exibe como entretenimento emocional. A recíproca é verdadeira: o ‘‘Jornal Nacional’’ faz questão de mostrar-me um crime estúpido por dia, ainda que tenha ocorrido em Goiás ou no Maranhão, sem levar em conta que, num grupamento social de 160 milhões de seres, alguém mata alguém por motivos fúteis todos os dias, desde Caim e Abel.
Quando Cristo caminhou na terra, havia, aqui, 200 milhões de almas. Esse número pouco se modificou até a era dos descobrimentos. Em 1650, havia no mundo 500 milhões de pessoas e a cifra de 1 bilhão só foi atingida em 1850. Por simples cálculo estatístico, qualquer coisa acontecia 6 vezes menos do que hoje, em 1850 - e não era multiplicada exponencialmente pois os veículos de comunicação não estavam sequiosos por circulação e verbas publicitárias para sobreviver, nem se haviam transformado em parte da indústria do lazer massificado.
Não estou propondo que isso seja intrinsecamente mau ou errado. Afinal, como jornalista e profissional de marketing, vivo da comunicação e do consumo. Apenas acho que, mais do que um simples mal-estar - como suspeitava Freud - a nossa civilização vive uma neurose coletiva, ao pensar que as coisas, hoje, são piores do que antes, e que o mundo está perdido. O mundo pode estar perdido, mas todos os indicadores sociais - como longevidade, saneamento etc. - indicam que muita coisa melhorou. Inclusive as comunicações, para distribuir a cada um de nós nossa cota diária de horrores - próximos ou distantes.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é presidente da Escola Superior de Propaganda e Marketing no Rio de Janeiro

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