Tudo sob controle
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de maio de 1997
Antônio Delfim Netto 
Há cerca de sessenta dias comentávamos aqui neste espaço o aumento das tensões derivadas do comportamento negativo de nossas contas de comércio externo. Aprisionado na armadilha do câmbio, o governo tem procurado encontrar caminhos alternativos para reativar as exportações, sem resultados. Mesmo o crescimento conjuntural das exportações agrícolas, beneficiadas pelos bons preços externos, não foi suficiente para reduzir de forma importante o saldo negativo. Em abril, as importações continuaram superando as exportações em mais de 650 milhões de dólares.
Não se contestam, nem no Brasil nem no exterior, os bons resultados do programa de estabilização. Existe, porém, uma crescente preocupação com o problema do financiamento do déficit comercial, principalmente após a sutil elevação das taxas de juros nos Estados Unidos. O aumento da dependência externa estreita ainda mais as margens de manobra da política econômica, o que significa que o governo perde condições de agir para enfrentar o agravamento das tensões sociais derivadas do desemprego em expansão no campo e nas cidades.
Diante da dificuldade de realizar o ajuste cambial, a equipe econômica está dividida quanto aos caminhos para superar o impasse. Desde o início do ano tenta chegar ao consenso em torno de medidas para conter o avanço do déficit comercial, seja pela restrição ao crescimento das importações, seja mediante a contenção do nível da atividade interna. Medidas tópicas para conter as importações influíram muito pouco até agora: as compras externas no mês de abril somaram 4 bilhões e 660 milhões de dólares, enquanto as exportações se situaram próximas de 3 bilhões e 900 milhões. A idéia de reduzir ainda mais o nível da atividade, com restrições ao uso do crédito, etc..., aparentemente foi descartada devido à desastrosa repercussão política e seus reflexos no campo social.
Internamente já não é possível esconder o desassossego que a indecisão do governo produz e que não se restringe apenas ao setor financeiro. Os mais entusiastas defensores da teologia da especulação trataram de arquivar o otimismo irresponsável, acautelando-se, provavelmente diante de sinais explícitos enviados do exterior. Nas duas últimas semanas a preocupação externa ganhou nome e endereço, quando o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional elogiou pela enésima vez o programa brasileiro de combate à inflação, ressalvando contudo o risco representado pelo aumento da necessidade de financiamento do déficit em conta corrente em certas economias emergentes. São déficits - disse o sr. Candessus - que podem não ser sustentáveis a médio prazo.
Na segunda-feira passada, em Washington, o sr. Robert Rubin, secretário do tesouro dos Estados Unidos, não poderia ter sido mais explícito ao dirigir-se aos governadores do FMI, dentre os quais o representante do Brasil: Todos nós devemos tomar precauções - disse ele - com os riscos apresentados pelos grandes déficits em conta corrente, com regimes cambiais inflexíveis e com as altas concentrações de dívidas de curto prazo.
Os mais otimistas crêem que as mensagens têm como alvo as chamadas economias emergentes, já os pessimistas acreditam que o alerta se dirige aos mercados financeiros... esse ente extraordinário que os fundamentalistas do Banco Central acreditam que podem manter sob controle nos seus terminais de computador...


