Ninguém acreditava mesmo que o presidente Carlos Menem havia desistido de concorrer a um terceiro mandato. Como a Constituição da Argentina proíbe uma segunda reeleição, Menem estaria impossibilitado de se apresentar mais uma vez como candidato do Partido Justicialista, o dos peronistas. Ele fingiu durante um bom tempo que aceitava a proibição, mas tirou a máscara.
Esta semana, Menem foi surpreendido pela articulação de dois dos pré-candidatos dos peronistas à presidência da Argentina, e que reduziria suas possibilidades de tentar a re-reeleição. Agiu rapidamente e, com isso, deixou claro não ter desistido de um terceiro mandato. Chegou até - o que, partindo dele, não é de se estranhar - a insinuar que Deus quer sua continuidade no poder.
Assim, não há mais dúvidas de que o presidente da Argentina fará o possível e o impossível para continuar na Casa Rosada. As primeiras movimentações dele e de seu grupo (as eleições prévias já foram adiadas) podem ser observadas a olho nu e indicam com clareza que o objetivo é mesmo esse.
Não é impossível para Menem conseguir uma decisão da Justiça que o favoreça. Mas se for bem-sucedido, antes de enfrentar o candidato da oposição, Fernando De la Rúa, o presidente argentino terá de superar a indignação dos pré-candidatos de seu próprio partido peronista, que terão de esperar mais quatro anos (ou oito, ou 12).
Menem está sendo beneficiado pelo mesmo fenômeno que possibilitou sua reeleição: o povo não morre de amores por ele, mas o considera o mais capaz de impedir que a Argentina passe por uma crise econômica. Ou melhor, para manter a estabilidade e impedir que a crise chegue, como chegou ao Brasil.
A crise brasileira, assim, ajuda as pretensões continuístas de Menem. Ele se coloca como a melhor opção para enfrentar as inevitáveis repercussões dela na Argentina e no Mercosul e as pessoas acreditam nisso.
Algo muito parecido com o que ocorreu aqui na reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. Pressentia-se a proximidade de uma grave crise econômica e os eleitores entenderam que o presidente é que tinha mais condições de enfrentá-la. Muitos até torceram o nariz, mas não viam opção melhor e votaram em Fernando Henrique. Agora, pelo menos, têm todas as condições de avaliar se votaram certo ou se iludiram.
A estabilidade sempre é um argumento poderoso a favor do governante, mesmo quando o preço é altíssimo. Na Argentina, significou o sucateamento do parque industrial, o empobrecimento da população e uma alta taxa de desemprego. Acabou com a soberania nacional: a moeda em vigor é o dólar e Menem é o mais fiel e submisso aliado dos Estados Unidos em toda a América Latina. Chegou ao ridículo de oferecer tropas para a Guerra do Golfo.
Sem falar nos incontáveis casos de corrupção já conhecidos e na degradação dos serviços públicos. A privatização na Argentina não fugiu à regra da que vem sendo feita nos países subdesenvolvidos: as empresas são compradas a preços de banana em processos pouco transparentes. Boa parte dos moradores de Buenos Aires, aliás, foi vítima nos últimos dias de um colapso de energia que os deixou na escuridão por onze dias. A empresa privatizada funcionava melhor quando era estatal.
De qualquer maneira, são os argentinos que têm de decidir se querem mesmo dar mais um mandato a Menem caso ele supere o obstáculo constitucional. Eles devem saber o que fazem.

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