Tudo igual
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de abril de 1997
Fernando José Dias da Silva 
Para irritar a milicada de plantão, da década de 70, bastava uma reunião dos bispos em Itaici e um comício do Lula na porta de uma fábrica em São Bernardo. As coisas mudaram muito. Ninguém mais do governo diz que não decide sob pressão. O presidente naquela época, general Geisel, fechou o Congresso denunciando que havia uma ditadura da minoria. Hoje o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Sepúlveda Pertence, diz que existe uma ditadura da maioria que está tolhendo a atuação da Justiça.
As coisas mudaram muito. Mas o governo continua preocupado com reunião de bispos em Itaici e com marcha de sem-terras (que substitui o Lula berrando na porta de fábrica). Não fala em pressão, mas tenta desqualificar a oposição chamando-a de neoboba e acusando-a de estimular a fracassomania. Também Fernando Henrique é muito mais simpático do que Ernesto Geisel.
Da década de 70 para cá muita coisa mudou, mas nós continuamos os mesmos, ou melhor, eles continuam os mesmos. O País continua matando os seus pobres com rotina indefectível. É verdade, também, que com mais sofisticação (botar fogo em mendigo é o suprassumo). As pessoas mais velhas continuam sendo tratados com desprezo. E qualquer um, mas qualquer um mesmo, não passa de um número nas estatísticas que são manipuladas pelos órgãos do governo.
Mas não tem importância, o Mercado vai resolver tudo isso. Com o Estado deixando de ser estatista as coisas se acertam. Só que acontece que, para vários especialistas insuspeitos, a realidade dos países capitalistas modernos se baseia em um tripé, sendo que um dos pés é efetivamente o Mercado, o segundo é o Governo e o terceiro é o Estado.
Muito bem, caindo pelas tabelas ou se desenvolvendo ainda em passos tímidos, Governo e Mercado nós temos. E o Estado? Aí que as coisas se complicam porque o Estado não é nem o Mercado e nem o Governo. É, além de outras coisas, uma estrutura permanente de cuja ação dependem tanto a eficácia do Governo, como as garantias do Mercado. Sem Estado não existe o contrato entre os integrantes da sociedade que faz com que não se caia na barbárie.
E o verdadeiro político, segundo Ortega y Gasset, é aquele que sabe o que se há de fazer, a partir do Governo, com o Estado. Apesar de todo o palavrório que já foi gasto, o fato é que existe uma base de sustentação sólida para os negócios do Mercado (basta lembrar dessas quebradeiras de bancos) como também para a obra do Governo em campos fundamentais como a proteção da sociedade contra qualquer tipo de delito e as garantias dos direitos de acesso aos serviços públicos da saúde, da atração e da previdência.
Então, talvez, antes de reformar o Estado, seja preciso reinventá-lo.


