Tucanos, pardais e a utopia
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de agosto de 1997
Gaudêncio Torquato 
No princípio, o tucano tinha um bico enorme e pertencia à família dos ranfastídeos, que incluia as espécies de grande porte. Do tipo Franco Montoro, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso, José Serra. Com o passar dos tempos, o bico foi ficando pequeno e a família tucana foi gerando filhotes de pequeno porte, alguns com feições de pardais. No princípio, lá por volta de 1989, o PSDB erguia a bandeira social-democrata e combatia, em documento, a privatização do Estado, denunciando que a aliança entre setores da burocracia e grupos empresariais desvirtuava a ação pública para torná-la cúmplice de interesses particulares.
Nos meados de 1997, tucanos se juntam a pardais e outras espécies para levantar numa bandeira fruta-cor, que, dependendo da posição em que é contemplada, combina cores do arco-íris com as quatro estações do ano. A chegada dos tucanos ao topo da árvore lhes permitiu enxergar a verdade da floresta: para dominar a bicharada, só mesmo distribuindo muito grão. E para continuar no topo, deviam fertilizar a família com genes de outras plumagens, mesmo pequenas e menos exuberantes, de forma a se criar uma raça resistente à bicadas duras de aves perigosas, como os gaviões do PT. E é assim que a floresta se infesta de pardais, de meio bico tucano.
O projeto político do PSDB, arquitetado pelo cérebro mais tinhoso do ninho, que é o do ministro Sérgio Motta, é ambicioso. Seu escopo prevê a multiplicação dos espaços tucanos, a aliança com dois a três grandes partidos, a distribuição de territórios de poder, um empuxo nos grandes programas de desenvolvimento, uma revolução na área social. Coisa de 20 anos. Os tucanos, evidentemente, continuariam a permanecer no topo da floresta. A moldura, como se pode prever, é a de uma gigantesca base política, homogênea no ideário, integrada politicamente. Para tanto, o PSDB faria vista pequena à teses sociais-democratas, defendendo apenas arabescos que poderiam lembrar antigos compromissos partidários com o controle social do Estado.
A marcha situacionista solaparia as bases oposicionistas e ideológicas, banalizando a política, absorvendo impactos, diminuindo pontos de tensão, criando, enfim maquinocracia capaz de funcionar com rolo compressor. Tal projeto teria como eixo a continuação do modelo de estabilidade econômica que o país adotou com o Real. O que o matreiro ministro Sérgio Motta parece desconsiderar é a natureza extremamente mutante da cultura política brasileira. Projeto que ultrapasse a casa de um mandato não vinga. Os nossos partidos são espaços de acomodação e não se filiam à causas de longa duração. Os nossos agentes políticos agem ao sabor dos ventos. Antes de uma profunda reforma política, projetos hegemônicos são enfeites de um museu de utopias.
Ademais, não se pode imaginar que as oposições continuem, estáticas, inertes, incapazes de sugerir um projeto alternativo ao país. Chegaram ao fundo do poço e, como sói ocorrer nesses casos, podem se recuperar. Basta um desvio de rota, uma crise mais aguda, conflitos generalizados, com rescaldo de insatisfações e angústias, para que as oposições resgatem vigor e força. O combate ao projeto do ministro está sendo feito, porém, por um vírus que se propaga pelas hostes peessedebistas: a arrogância. O partido tucano, mesmo acinzentado por levas de pardais, continua a olhar os outros, do alto de uma montanha de onipotência. O próprio ministro, com sua cavalar sinceridade, amendronta e provoca atritos. Ninguém quer tê-lo como inimigo. Como adversário, é respeitado e mantido à distância. E os amigos frequentemente se queixam de ficar em maus lençóis, em função de seu gosto por armas de grande calibre. José Serra poderia ser outro artífice do projeto? É considerado antipático. Quem sabe, o próprio FHC?


