Tucanos abandonam a inocência - Gaudêncio Torquato
Gaudêncio Torquato
A aliança dos tucanos com os petebistas num bloco de 127 deputados, mais que uma sinalização do interesse do PSDB em presidir a Câmara Federal, é um ensaio de jogada no tabuleiro presidencial de 2002. A leitura é clara: os tucanos querem fazer o sucessor de Fernando Henrique e, para tanto, estão dispostos a passar o rolo compressor sobre quaisquer obstáculos. É claro que precisam preservar as bases da aliança governista, mas se o PFL, que se acha herdeiro da presidência da Câmara, com a volta de Inocêncio de Oliveira, for um obstáculo, o PSDB não terá dúvidas em fazer um casamento de conveniências com o PMDB.
Para se compreender a recente jogada tucana, há que se resgatar os acordos e costumes das duas Casas parlamentares. Cedendo a presidência para ACM no Senado, o PMDB, maior partido na Câmara Alta, credenciou-se a presidir a Câmara, que tem Michel Temer como presidente no meio do segundo mandato. O PSDB se conformou com a situação, tendo em vista a consolidação da aliança governista e o fato de ter um tucano na presidência da República. O acordo apalavrado entre PFL e PMDB, no início da primeira gestão de Michel, era para a volta de Inocêncio. Nada mais natural, sabendo-se que o PFL era imbatível na sua condição de maior partido na Câmara. Mas o golpe dado pelos tucanos, esta semana, confere novas cores ao cenário.
Os tucanos, ao fazerem um acordo com o PTB de Roberto Jefferson (ex-collorido do RJ), Fleury (SP) e Martinez (ex-collorido do PR), demonstram cabalmente que a social-democracia não resiste ao primeiro canto da sereia. Mandam a questão ideológica-doutrinária para o espaço, pintam o tucanato com todas as cores da floresta e se embalam numa festa onde tucanos de grande bico passam a namorar tranquilamente sabiás, rolinhas, pintassilgos e até pardais. É o grande embalo da perda da inocência. (Não resistindo ao trocadilho: com imensa perda para o Inocêncio). A política brasileira, com mais esse exemplo de pragmatismo interesseiro, demonstra que partido puro, partido ético, partido doutrinário, é balela. Tudo é partido-ônibus, esse que aceita qualquer passageiro em qualquer lugar.
O PFL ameaça com um troco, que seria uma aliança com o PPB de Maluf, dentro de um mês. Os tucanos, maquiavélicos, ameaçam fazer um acordão com o PMDB. O bloco monumental deixaria o PFL fora da chapa presidencial tucana. Fernando Henrique, caladinho, aceitou a jogada, primeiro para garantir a homogeneidade interna de partido; segundo, para se livrar da tutela de ACM, a quem teme, mas não tem coragem nem vontade de enfrentar em briga aberta. O PMDB é o grande beneficiário dessa disputa. Formando um bloco com o PST e PTN, acabou como segunda maior bancada, com 102 deputados. Vai presidir o Senado, provavelmente com Jáder Barbalho, e terá forte influência na decisão sobre o comando da Câmara.
Aliás, há quem esteja costurando, nos bastidores, uma aliança entre tucanos e peemedebistas, visando a formação de um fortíssimo partido de centro-esquerda, juntando as raízes do velho MDB, hoje frutificando em diversos territórios. Nesse caso, a conformação partidária deixaria na ponta direita os pefelistas e os pepebistas, na área de centro-esquerda tucanos e peemedebistas e, na ponta esquerda, petistas, pecebistas e pedetistas. O PSB de Arraes e Erundina se dividiria, parte sendo engolida pelo núcleo de centro-esquerda e parte indo para a ponta-esquerda. O PPS de Roberto Freire e Ciro Gomes não resistiria, também se fracionando. Esse desenho retrata com mais fidelidade as cores da política nacional.
O jogo está aberto. O próprio presidente Fernando Henrique não mais se aborrece quando o tema sucessão é abordado. No íntimo, gostaria de abrir o debate sobre parlamentarismo. Não são poucos os que divisam uma crise de proporções inimagináveis, a persistir o presidencialismo imperial como o nosso, com crises intermitentes. Na prática, as alianças que se fazem no Congresso são um arremedo parlamentarista. Cresce a tese de se atribuir poder de executar a quem tem poder de legislar. Os recentes movimentos na Câmara, mesmo que de leve, traduzem também tal expectativa. O maquiavelismo campeia. Ninguém é mais inocente no reino dos Inocêncios.





