Tuberculose: ainda existe?
Doença segue ativa e mata mais de 1 milhão por ano no mundo, apesar dos avanços no diagnóstico e tratamento
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de novembro de 2025
Doença segue ativa e mata mais de 1 milhão por ano no mundo, apesar dos avanços no diagnóstico e tratamento
Flávia Meneguetti Pieri 

O Dia Nacional de Combate à Tuberculose (TB), celebrado em 17 de novembro, é uma data que nos convida a refletir sobre uma doença que muitos acreditam ter ficado no passado. “Tuberculose? Isso ainda existe?”
A pergunta, embora pareça saída de um passado distante, revela uma realidade urgente. A TB permanece entre as doenças infecciosas que mais matam no mundo: cerca de 10 milhões de novos casos e mais de 1 milhão de mortes por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, mais de 80 mil pessoas adoecem anualmente. O bacilo de Koch continua encontrando abrigo não apenas nos pulmões, mas também nas desigualdades sociais.
A TB é causada pelo Mycobacterium tuberculosis e transmitida pelo ar. O Ministério da Saúde considera sintomática respiratória toda pessoa com tosse há três semanas ou mais, podendo apresentar febre vespertina, suor noturno, perda de peso, hemoptise e dor torácica. A doença tem cura, mas exige diagnóstico precoce, vigilância contínua e adesão rigorosa ao tratamento.
Infecção Latente: a forma silenciosa
Pouco se fala sobre a infecção latente por tuberculose (ILTB), em que o bacilo entra no organismo, mas a imunidade impede sua multiplicação. O indivíduo não apresenta sintomas nem transmite a doença, mas pode adoecer caso sua imunidade caia. Estão em maior risco: pessoas vivendo com HIV/aids, crianças menores de 5 anos, contatos de casos ativos, pessoas privadas de liberdade, em situação de rua, indígenas, imigrantes, profissionais de saúde e pessoas com doenças crônicas ou em tratamento imunossupressor.
A investigação da ILTB deve ser ampliada, especialmente entre contatos e grupos vulneráveis. Exames como a prova tuberculínica, o IGRA e avaliações clínicas orientam o início do tratamento, capaz de reduzir em até 90% o risco de evolução para a forma ativa. A vigilância da ILTB é fundamental para que o Brasil avance rumo à meta global de eliminação da TB até 2035.
Diagnóstico gratuito e acessível
O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece gratuitamente exames como o Teste Rápido Molecular (TRM-TB), baciloscopia, cultura, radiografia de tórax, IGRA e prova tuberculínica. Em Londrina, há serviços de referência, equipes capacitadas e integração entre a vigilância e a Atenção Primária. Apesar disso, ainda enfrentamos diagnóstico tardio, interrupção do tratamento, óbitos evitáveis, casos de TB resistente (TB-DR/MDR-TB) e TB em crianças, o que sinaliza falhas na detecção precoce. Quanto mais tarde o diagnóstico, maior a transmissão para familiares e para a comunidade.
Tratamento: gratuito, eficaz e salvador
A TB tem cura. O tratamento, disponível no SUS, dura seis meses e utiliza a combinação rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol (RHZE). A adesão é essencial: interrupções favorecem recaídas e resistência medicamentosa.
Para fortalecer o cuidado, o Ministério da Saúde recomenda o Tratamento Diretamente Observado (TDO). Em Londrina, essa estratégia é realizada por enfermeiros e agentes comunitários, garantindo vínculo e segurança. A cidade também implementou o telemonitoramento por vídeo (VDOT), que possibilita um acompanhamento remoto e eficiente. A iniciativa, desenvolvida em parceria entre a Secretaria Municipal de Saúde, o ambulatório de TB do CIDI, a vigilância epidemiológica, a UEL e a pesquisadora Ana Carolina P. Castro, sob minha orientação, coloca Londrina na vanguarda da inovação no controle da TB.
Um passado que insiste em habitar o presente
A TB ainda existe. E segue tirando vidas. Mas há profissionais, pesquisadores, gestores e cidadãos empenhados em combatê-la diariamente nas UBS, laboratórios, prisões, abrigos e nas ruas.
A pergunta “tuberculose ainda existe?” precisa nos provocar: Sim, existe. Mas pode ser vencida. Com informação, solidariedade e fortalecimento do SUS, podemos transformar esse desafio persistente em uma página virada da saúde pública brasileira.
Profa. Dra. Flávia Meneguetti Pieri
Enfermeira. Docente do Departamento de Enfermagem (Infectologia)
Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu e Lato Sensu da UEL


