Há cinco anos, Sérgio Malucelli desembarcou em Londrina com uma missão: tirar o Londrina Esporte Clube, de tantas glórias, do limbo, do fundo do poço. O clube vivia anos difíceis, era chacota, não pagava ninguém, não ganhava de ninguém. Ele conseguiu. O Tubarão recuperou o respeito, a vida financeira e a história vencedora. Foi campeão estadual depois de duas décadas, subiu de série no Brasileirão, forneceu jogadores para grandes clubes, enfim, voltou a ser o "Destemido Tubarão". Mas proporcionalmente, a torcida não cresceu. Continuam os mesmos 3 mil torcedores de cada jogo, o que faz com que o gestor alviceleste viva às turras com os londrinenses. "Um absurdo uma cidade de 500 mil habitantes ter esse número de torcedores", diz.
Intempestivo, o dirigente costuma explodir quando vê as arquibancadas vazias, quando vê uma manchete que não lhe agrada, quando o árbitro erra, ou em outras tantas ocasiões. E essa enxurrada de sensações e sentimentos faz Malucelli garantir que os cinco anos que lhe restam de gestão do Tubarão são os últimos no futebol. "Desgasta demais", confessa.
Em entrevista exclusiva à FOLHA, o polêmico cartola fala da torcida, das eleições na Federação Paranaense de Futebol (FPF) e das chances do Tubarão brigar pelo acesso à Série B do Brasileiro ano que vem. O LEC estreia na Série C no próximo domingo, contra a Portuguesa, no Estádio do Café, com portões fechados por causa da punição pela briga campal com o Brasil de Pelotas da Série D do ano passado. Confira o papo:

Qual a avaliação deste primeiro semestre?
Foi até acima do que esperávamos. Nossa ideia era fazer um bom campeonato e buscar a vaga na Copa do Brasil, o que deixava próximo do título. Quase chegamos lá. Ficou aquele gosto ruim da derrota para o Coritiba. Três a zero foi duro.

Ficou a sensação de que poderia ter sido campeão?
Eu acho que estava mais perto do que ano passado. Depois da vitória sobre o Maringá pensei: ‘agora vai de novo’. Aí ganhamos aqui do Coritiba, fizemos um primeiro tempo lá muito bom, mas veio o segundo tempo e tomamos dois gols. Mata, né?

Londrina campeão em 2014 e Operário em 2015. O interior está crescendo ou a capital está encolhendo?
Acho que os dois. O Atlético, com esse desprezo pelo Campeonato Paranaense, abriu espaço para outros clubes. Londrina soube aproveitar, o Operário. Isso para o futebol paranaense é muito bom. Fortalece mais o campeonato do ano que vem.

Essa nova ordem vem para ficar ou é onda passageira?
Não é fácil, mas o Maringá foi vice ano passado e chegou às oitavas. Se Operário, Maringá, mantiverem o trabalho, o interior tem chances de melhorar, sim.

A FPF faz um bom trabalho para esse fortalecimento?
Dentro das limitações da FPF, não dá para a gente reclamar. O que houve foi um menosprezo muito grande do Atlético e isso atrapalhou muito na negociação com a TV. Nós entramos no meio do caminho e tivemos que aceitar. Mas para o ano que vem vamos fazer grande mudanças na TV e no campeonato.

É o momento do Londrina encabeçar um movimento para melhorar as condições no acordo com a TV e no formato de campeonato?
É o momento do interior se unir, se mobilizar e ter uma força maior para brigar com os clubes da capital. E na TV, a hora é agora. Tive várias reuniões com a emissora e prometeram mudanças. O contrato acaba agora em maio. Tem uma promessa de prestigiar mais os clubes como o Londrina, que é um clube que trabalha o ano todo e tem um calendário na Série C do Brasileiro.

O que Santa Catarina faz de diferente para ter mais sucesso com clubes nas séries A e B?
Houve uma união muito grande entre os clubes junto com a federação e isso fez a força do futebol catarinense. Eu acredito que o Paraná tenha muito mais condições do que Santa Catarina. Mas precisamos retomar nossa posição. Aqui é muita ciumeira. Atlético é brigado com todo mundo, o Coritiba estava separado. Tudo atrapalhou bastante. Acredito que com uma união entre os clubes, tanto da capital como do interior, o futebol paranaense pode melhorar muito. O que não pode é o Atlético ficar dizendo que o Campeonato Paranaense é uma droga, que só dá prejuízo. Tem que pôr a mão na cabeça que vai ganhar aonde? Se não ganhar o Paranaense, não ganha nada mais.

O técnico Cláudio Tencati deu a entender que sai em dezembro. Isso está consumado?
Mudou um pouquinho o tom. Não é bem assim. Estamos abertos a isso há tempos. A hora que aparecer uma coisa boa para o Tencati é lógico que vou liberar e dar força para ele.

Então não tem outro treinador na pauta?
Na hora que aparecer algo para ele vamos atrás de outro. Hoje não.

Em qual patamar o Londrina estará na Série C? Vai brigar para subir?
Vamos ter uma Série C complicada, por ser o primeiro ano. Mais complicado ainda pelo fato de não termos quatro jogos em casa (o time perdeu quatro mandos de campo). É um campeonato diferente para nós, são dez equipes fortes no grupo e vão se classificar apenas quatro. Mas pelo que tenho visto das outras equipes, acho que o Londrina tem grandes chances. O Londrina vem mantendo a base da equipe há três anos e isso dá um conjunto.

Você vive às turras com a torcida. Você já se conformou que o Londrina tem fiel apenas esse grupo de 3 ou 4 mil torcedores?
Não tem jeito de se conformar. Um absurdo uma cidade de 500 mil habitantes ter esse número de torcedores. Dizer que o Londrina estava abandonado não dá. Estamos aqui já há cinco anos e ganhamos quatro títulos neste período. O time vem crescendo ano a ano, já a torcida, ao invés de crescer, está diminuindo. Isso que cobro bastante. Tenho que parabenizar os dois ou três mil que vão todo jogo e cobrar a cidade. Falta um apoio do torcedor, da Prefeitura. O prefeito poderia ajudar um pouco mais e não é com dinheiro. Nunca pedimos dinheiro. Pedimos apoio, melhora no estádio, que é a cara de Londrina, é o que mostramos para o Brasil todo.

O sócio torcedor começou com sucesso, teve mais de 2 mil adesões no primeiro mês e depois teve a mudança na forma de pagamento e teve uma entrevista sua dizendo que mandaria os jogos fora daqui. Acha que isso desestimulou novas adesões?
Esse é outro problema que vejo aqui em Londrina. Uma choradeira impressionante. Era uma forma de pagamento que para nós era ruim. Fazíamos no boleto em dez vezes. O cara ia quatro meses no campeonato e depois parava de pagar. Para nós era um prejuízo grande. Para quem comprava em dez vezes, pode fazer no cartão. O valor acho que é o mais baixo do futebol brasileiro e ainda o torcedor tem direito a ingresso. Inclusive está dando um prejuízo grande para nós porque quem comprou foram aqueles 2,5 mil que já iam aos jogos. Deixou de entrar a arrecadação da renda, que seria maior, e agora eu pago taxa da empresa que gerencia, taxa do Londrina e taxa da federação. Temos que chegar a 5 mil sócios para estabilizar.

Faltam cinco anos para o fim da parceria. Já está pensando o que vai fazer depois?
Eu paro e entrego o Londrina, se Deus quiser, na Série A ou B e com time montado. É muito cansativo, desgastante e na realidade, lucro não está tendo.

Mesmo com as vendas de jogadores que você fez?
Todo mundo fala das vendas, mas não falam quanto gasta. Temos uma despesa o ano todo, com 160 pessoas no CT. Pega uma folha de pagamentos e veja quanto é o custo. Você vende um jogador por R$ 8 milhões e não paga esse custo. Falam: ‘ah, a SM está ganhando um monte no Londrina’. É que estão acostumados com o tempo em que o Londrina fazia time de R$ 100 mil, leilão para pagar viagem.

Você não está satisfeito com o volume de vendas?
O volume de vendas está pequeno, mas é pela conjuntura de mercado. É que o custo aqui é bem maior do que tinha em Irati. Lá eu gastava R$ 3 milhões por ano. Aqui gasto R$ 8 milhões.

Mas isso é proporcional à visibilidade e tradição do clube.
O Londrina tem muito mais nome que o Iraty, mais divulgação, mas a venda é o mesmo valor. Tenho que pegar o jogador e pôr no Corinthians, no Grêmio, para valorizar.

mockup