O Dia da Independência une os Estados Unidos em um gigantesco manifesto patriótico. Milhões de bandeiras hasteadas, carros alegóricos e balões enormes colorem as ruas de todas as cidades em tons de vermelho, azul e branco, culminando com a tradicional queima de fogos. Mais do que uma data festiva, o 4 de Julho evoca a fundação de uma nação sob os ideais iluministas de liberdade e igualdade. Neste ano, em comemoração aos 250 anos da Independência, a promessa é a de bater todos os recordes em exaltação à memória dos bravos colonos que derrotaram o poderoso Império Britânico. No entanto, o que deveria ser um reencontro histórico com as raízes do país transformou-se em mais um capítulo da feroz polarização política entre democratas e republicanos.

Idealizada há uma década pela comissão apartidária America250, a celebração institucional acabou engolida pela disputa partidária. Com seu retorno ao poder, Donald Trump priorizou a Freedom 250 — organização privada criada por seus aliados — em detrimento dos planos originais de concertos e cápsulas do tempo. O estopim do conflito ocorreu durante a Grande Feira dos Estados Americanos, em Washington, quando governadores democratas acusaram o presidente de transformar o marco histórico em promoção pessoal.

Ignorando os opositores, Trump utiliza a mística dos 250 anos para traçar uma linha divisória entre o passado recente e o momento atual de sua gestão. Em seu discurso no National Mall, ele afirmou enfaticamente que o país se recuperou sob seu comando: “Há pouco tempo, éramos um país morto. Estávamos mortos. Agora somos o país mais forte em qualquer lugar do mundo”.

Trump fez da comemoração de seus 80 anos, no dia 14 de junho, um megaevento: o gramado da Casa Branca foi convertido em uma arena de MMA para a realização do inédito UFC Freedom 250. Ele também determinou a criação do Grande Prêmio da Liberdade, uma corrida de rua da IndyCar. Outra novidade serão os Jogos Patrióticos, competição que reunirá os melhores atletas de ensino médio de cada estado. Os vencedores dividirão uma bolsa de estudos de 250 mil dólares. A Copa do Mundo, disputada em 11 cidades americanas, ajuda a fortalecer esse espírito de celebração nacional.

Após a disputa do UFC no gramado da Casa Branca, ocasião em que o presidente aproveitou os holofotes para anunciar um inesperado acordo de paz com o Irã, os democratas questionaram publicamente a idade avançada e a saúde cognitiva do republicano, chegando a invocar a Constituição para pedir sua destituição. Para rebater essas críticas, os republicanos lembraram que os democratas mantiveram Joe Biden na presidência mesmo quando ele exibia lapsos graves de memória, confusão verbal e quedas frequentes que o levaram a desistir da candidatura à reeleição.

Mas os democratas não conseguem rebater os resultados de uma agenda ágil — às vezes até inconsequente — que tem sacudido o tabuleiro mundial. Fugindo dos acordos políticos e diplomáticos tradicionais, e da morosidade burocrática, em pouco mais de um ano, Trump forçou a Europa a armar-se para a própria defesa, barrou a expansão chinesa no Canal do Panamá, atacou o arsenal nuclear do Irã — com a participação de Israel —, investiu na Inteligência Artificial, neutralizou o regime de Caracas com a captura de Nicolás Maduro, classificou como terroristas facções de traficantes brasileiros, e tanto pressionou que Cuba anunciou o maior pacote de reformas pró-mercado desde a Revolução de 1959.

Ciente do fim de seu horizonte político, Trump, aos 80 anos, acelera uma reforma estrutural drástica que ecoa dentro e fora das fronteiras americanas. Ele aproveita a celebração dos 250 anos da Independência para tentar cravar na identidade do país o seu lema 'America First' como um legado histórico de seu governo.

Edinelson Alves, jornalista

mockup