Um garotão chegando na roda de amigos, cantando os pneus de um carro recém adquirido! É assim que eu vejo a posse de Trump e os seus primeiros discursos e decretos. Não que eles sejam inócuos ou inofensivos. Não! O mundo precisa levar a sério o atual inquilino da Casa Branca. Ele tem potencial para abalar os pilares da nossa civilização; literalmente! Sem nenhuma modéstia, inaugurou o discurso: “Neste exato momento, começou a idade de ouro dos Estados Unidos”! Quem duvidar, terá que “pagar para ver” e o custo poderá não ser em dólar!

Foi um banho de arrogância, prepotência, espírito de exclusão, com ares de desafio, que não se via há séculos, ou quiçá, nunca contemplado! O séquito de bajuladores e neo-sócios do Tio Sam, deixava claro que os pobres do mundo, serão tratados exatamente como são: pobres! América “first” empurra o resto do mundo para o seu devido lugar: a vassalagem! Não há lugar para o meio termo, a não ser que resolvam engrossar o número dos Estado da Confederação. Segundo Trump, que tal começar pelo Canadá?! Aliás, ficará melhor “América only”!

Nem todos os seus arroubos e desejos terão sucesso. A Justiça e nomeadamente a Suprema Corte (por enquanto), lhe dirão que o Estado de Direito, embora machucado, ainda existe nos “States”. Avalanches de ações das Procuradorias, dos Governadores e das Entidades de classe, brecarão uma série de loucuras e aberrações que ele vociferou e assinou. A primeira, será com certeza a defesa do preceito constitucional, de que bebe nascido nos Estados Unidos é americano! O leitor acharia isso óbvio, mas para Trump não!

Trump é um inconsequente. Qualquer desavisado sabe que imigrantes (clandestinos ou legais) movem a máquina americana. Isso lhe lembrou brilhantemente, olhando nos olhos, a bispa anglicana Mariann Budde: "Há crianças gays, lésbicas e transgêneros em famílias democratas, republicanas e independentes, algumas que temem por suas vidas. As pessoas que colhem em nossas plantações e limpam nossos prédios de escritórios, que trabalham em granjas e em frigoríficos, que lavam a louça depois que comemos em restaurantes e trabalham nos turnos noturnos em hospitais, elas podem não ser cidadãs ou ter a documentação adequada, mas a grande maioria dos imigrantes não é criminosa. Peço que tenha misericórdia, Sr. Presidente”! Uma mulher que representou de forma espetacular todos os religiosos, que ainda possuem um viés profético.

O projeto de Trump é a manutenção no poder. Inconfessável. Li hoje, que já há movimentação de aliados para viabilizar um terceiro mandato. Não é nenhuma novidade, que ele admira Putin, Kim Jong-un da Coreia do Norte, o líder chinês Xi Jinping e até Recep Erdogan da Turquia. Tem um “fraco” por líderes “fortes”, em geral ditadores ou seus aprendizes. A psicologia o explicará melhor do que eu. O perdão aos invasores do Capitólio não foi, como muitos pensam, um gesto de agrado aos seus seguidores e sim, uma atitude de desprezo ao “parlamento americano”! Regimes totalitários começam assim. As mudanças de perfil da Suprema Corte, já as havia feito no primeiro mandato.

Talvez o que mais preocupante, foi o abandono do Tratado de Paris. Trump flerta com o apocalipse, que já deu as caras numa série de eventos climáticos extremos pelo mundo afora e de modo especial no seu país. Milionários tiveram as suas casas queimadas em Los Angeles em pleno inverno e a Flórida registrou temperaturas glaciares, para não mencionar Washington no dia da posse! O presidente negacionista, elogiou e exaltou a extração do petróleo fazendo os EUA o principal produtor dessa energia fóssil. Poluição é, na ótica de Trump, “blábláblá esquerdista”! Na posse, declarou guerra ao Planeta! Quer inclusive acabar com a Agência Nacional de Combate a desastres climáticos. Como referiu um amigo, talvez a “idade de ouro” dele, não passe de uma volta à idade da pedra!

O mundo tem razão em temer Trump. Fica a esperança, de que um restinho de bom senso no “america first again”, o afaste de medidas autofágicas! Bom para todos!

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos

Arquidiocese de Londrina

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