Donald Trump, presidente dos EUA, atualmente representa a maioria dos eleitores na democracia estadunidense. Engana-se quem supõe tratar-se aqui de uma defesa de Trump. Muitos, ao vê-lo em ação, temem pela democracia. Está fresco em nossa memória qual é o ponto fraco da democracia?

Circunstâncias de insatisfação política: a) num contexto globalizado, dificilmente os governos atuam isolados; desarranjos “lá” afetam “aqui”, e vice-versa; b) países como Brasil e EUA possuem grandes densidades demográficas, mal distribuídas em territórios extensos. É provável que um presidente não represente os interesses dessa grande diversidade populacional, o que motiva protestos válidos; c) a aparição polêmica de um líder no meio público, intencional ou não, é sinal de que as rédeas insistem em escapar-lhe.

Parte do povo inclina-se a achar que polêmica é atuação. Ela indica que algum grupo está pronto para saborear seus deslizes como se fossem os últimos. Não há tolerância adversária, enquanto apoiadores fazem vista grossa a defeitos de caráter comprometedores, não aceitáveis em um líder.

Representar o povo exige conhecer a natureza humana; líderes polêmicos como Trump reduzem soluções ao viés econômico, ignorando que, além do fim da pobreza, nossos anseios mais profundos envolvem valores como fraternidade, moderação e a justiça acima do interesse próprio.

O viés puramente sociológico não basta às democracias, pois políticas públicas, embora prioritárias em algumas regiões, geram desconfiança em outras; afinal, também é verdade que “um coração perceptível sensibiliza os olhos”.

Economia e políticas públicas precisam do justo meio; senão, os Estados devem se fragmentar para aplicar o viés adequado. Assim como na medicina, adota-se a especialização em função da efetividade. Um cardiologista não atua como neurologista.


É isso que Trump faz: um ortopedista político se passando por clínico-geral. “Falta tato”. Seu governo funcionará para os que enxergam as coisas sob essa ótica.

A democracia está mesmo em declínio?

Sendo a democracia, no étimo, o “governo do povo”, seus representantes emergem de suas camadas acompanhados de vícios e virtudes. Na modernidade, ela se alicerça também sobre as instituições e o Estado de Direito. O critério clássico é que a maioria elege seus representantes. Há duas possibilidades: a) temos dificuldade em reconhecer as qualidades do oponente vencedor; b) o critério clássico já não nos satisfaz. O primeiro é evidente, falta o exame impessoal do “outro”, mas ele não explica a atual crise da democracia.


Desde Platão, sabe-se que a democracia tem fragilidades — hoje ampliadas pela complexidade social —, pois o povo é facilmente conduzido por discursos simplificadores, enquanto representantes, distantes da realidade social, atendem apenas aos interesses que conhecem. O filósofo apontou a fragilidade da democracia: governantes limitados priorizam seus próprios interesses e os de seu grupo, em detrimento da comunidade; hoje, a ofensiva ao Estado de Direito é consequência dessa lógica. “Testar a Constituição” é inaceitável, mas, como previu o filósofo, a própria estrutura democrática permite tais brechas. Mesmo consagradas, as Constituições se abrem às demandas do presente; ao tentar sobrepor-se a ela, Trump apenas explora os mecanismos possíveis dentro desse sistema.

Alguns estarão satisfeitos, outros não. Não há unanimidade.

Conclui-se que não há falha essencial nas democracias americana, argentina ou brasileira, pois sua estrutura permite figuras como Trump, uma amostra esperada — talvez seu ápice vicioso, e por isso uma ameaça.

Ideia paradoxal, sem dúvida, porque mira as razões de anomalia num dado sistema.

Tendo em vista a conjuntura global, uma forma de governo que atue para além dessa fragilidade, com uma versatilidade ainda desconhecida, ainda está para nascer. A insatisfação popular e a reflexão teórica indicam que o tempo já forja essa forma de governo mais perfeita.

A reflexão, embora idealista, busca acalmar os ânimos, evitar o deleite nos erros dos governantes e promover pensamentos mais otimistas diante das imperfeições humanas e institucionais.

Douglas Giovani Ezequiel, mestrando em Filosofia nas UEL.

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