Com o objetivo de inserir o calouro no meio universitário, o trote, que é considerado um ''ritual de passagem'', persiste desde a era medieval fomentando polêmica e opiniões contraditórias.

A prática, desde o início, é marcada por violência e humilhação - características que se acentuaram com o passar do tempo. A recepção dos veterenos já contemplaram cenas de agressão física, coma alcoólico e até morte.

Para a antropóloga Leila Jeolás, o problema não está no trote e sim na estrutura social, que é extremamente competitiva, individualista e desigual. ''A discussão é muito complexa'', afirma, ressaltando que a violência está no trânsito, nos bares e em diversos segmentos da sociedade.

Segundo ela, os trotes violentos tendem a aumentar se não houver debates sistematizados no ambiente acadêmico. Além disso, para minimizar o problema, é preciso voltar a atenção à desigualdade social, buscando educação de qualidade e oportunidades de emprego.

Qual é a origem dos trotes?
O trote originou-se como um ritual de passagem na Idade Média. Estava relacionado ao acesso dos camponeses e burgueses à universidade, bem como às elites militares. O trote é um tipo de rito que marca um limite na vida social, relacionando-se ao contexto sóciocultural. Na Idade Média eles eram bem violentos como a sociedade da época. No entanto, era uma violência diferente da aplicada hoje.

Por que os trotes estão cada vez mais violentos?
Eles expressam um tipo de violência estrutural à sociedade brasileira. Essa violência aparece na universidade por diversos fatores. O fato de a universidade ser um local de exclusão - menos de 10% da população brasileira chega ao ensino superior -, já traz um elemento de violência. A competitividade também pode colaborar nessa eclosão. Outro aspecto observado é que os trotes mais violentos, de modo geral, aparecem em cursos em que a maioria é homem. Acho que a exclusão social somada ao gênero pode nos dar algumas explicações. Além disso, percebe-se que os cursos mais competitivos realizam trotes mais violentos.

Por quais motivos os cursos mais competitivos ''extrapolam'' nos trotes?
É o estresse da disputa. São jovens que passam anos tentando entrar no vestibular enfrentando uma pressão familiar, social, dos amigos e de todos os lados. Depois que ele entra na universidade ainda tem o estresse de se manter lá.

Na sua opinião, como o problema pode ser solucionado?
Não adianta simplesmente proibir trotes violentos, pois não se elimina a violência por decreto. É preciso haver um debate sistematizado com os alunos, professores e com a comunidade como um todo, a fim de entender as dimensões da violência da sociedade contemporanêa. Isso não acontece. Aconteceram algumas discussões isoladas.

E por que esses debates sistematizados não acontecem?
Isso faz parte de tantos problemas relacionados à juventude e que não são enfrentados de maneira clara. As mudanças estão acontecendo tão rapidamente que a relação entre a geração mais velha e a mais jovem está sem continuidade. Por isso, tem que haver um debate sistemático e horizontal, pois não adianta apenas o decreto da universidade. A proibição tem um alcance muito limitado. É preciso entender que uma coisa é o trote e outra é a violência que eclode dele. Não sei se é o caso de brigar pela eliminação do trote, que é uma forma de ser introduzido no universo acadêmico. Eu acho que todo ritual é uma forma de socialização muito importante.

Como são os rituais em outros grupos? A violência é mais contida?
A violência e a zombaria aplicada em outros grupos é respaldada pelos mais velhos, que colocam limites, normas e regras. Nesses casos, quando a violência é colocada em prática - como na sociedade indígena em que o menino antes de ingressar no mundo dos adultos passa por provas de força e sofrimento -, os mais velhos impõem limites. Isso acontece com todos os tipos de rituais que acontecem em sociedades não capitalistas. No entanto, na nossa sociedade não tem a presença de uma pessoa mais velha para controlar a droga e a bebida, por exemplo.

A tendência é piorar?
Eu tenho a impressão de que se a gente não enfrentar a crescente desigualdade social, não pensando em políticas públicas, educação de qualidade e emprego, a situação tende a piorar muito.

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