Permitam-me deixar de lado as eleições e a crise econômica para dedicar este espaço ao drama pessoal de uma menina de 10 anos. Ela está grávida de quase quatro meses, resultado de estupros sucessivos cometidos por homens adultos e depravados. Sua família, gente humilde de Israelândia, em Goiás, confiou na Justiça e reivindicou o que a lei assegura à menina o direito ao aborto. Feito isso, a menininha virou brinquedo de disputa entre militantes contrários ao aborto, padres católicos ensandecidos, integrantes do Judiciário que se consideram donos da verdade e moralistas de fachada.
Dói-me o coração pensar na garotinha e em seus pais, já combalidos pela violência em si, sendo torturados, pressionados, condenados e xingados pelos que se autoproclamam defensores da vida. Sem o menor respeito e consideração pelo que quer a família, pelo sofrimento atual, pela terrível opção que é o aborto, essa gente caiu sobre a menina como abutres brigando por carcaça humana.
São pouco convincentes os discursos de que se trata de ação para defender uma vida em gestação, direito sagrado e cristão. Trata-se, ao que tudo indica, de batalha política em que uma criança de 10 anos é usada como instrumento para que uma corrente de pensamento no País (os grupos contra o aborto) prevaleça sobre outra (os que o defendem). Fazê-la desistir do aborto, ainda que pela força, empurrando a decisão judicial para quando for tarde demais, parece uma questão de honra. É como se estivessem prestes a fincar uma bandeira no topo de uma montanha para dizer: ‘‘Vencemos’’. Vale tudo: coerção, tentativa de corrupção na forma de oferecimento de fraldas e bercinhos, e até ações na Justiça.
Se assim não fosse, como explicar o descaso, a indiferença e o rancor com que são tratados os envolvidos, a menina e seus pais? Onde está a tão propalada caridade cristã que nos ensina a sermos solidários com a dor do próximo, a consolá-lo e compreendê-lo por mais que suas opções de vida contrariem as nossas convicções religiosas? Lembro-me do apoio que deu a Igreja Católica a tantos jovens perseguidos pela ditadura no País sem jamais ter pedido atestado ideológico ou moral a eles, mas apenas solidária com seu sofrimento e inconformada com a injustiça. Onde está essa Igreja, que não coloca um paradeiro na insanidade hipocritamente em defesa da vida?
Os grupos contrários ao aborto têm todo o direito de lutar por suas posições. Mas que o façam no Congresso, em passeatas pelas ruas, nas suas emissoras de rádio e televisão, nos púlpitos das igrejas, e não à custa de uma criança de 10 anos, já vitimada pela violência física. Ela está sendo transformada em troféu na disputa entre gente pró e contra o aborto, como outras garotinhas já foram antes dela. Deixem que a menina e sua família decidam as suas vidas, façam suas escolhas no silêncio do próprio sofrimento e à luz de suas crenças pessoais. E, se não concordarem com sua decisão, façam o que diz a Bíblia: perdoem.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo

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