Trocar saúde por dinheiro é uma prática habitual de nossos governantes, nas últimas décadas, penalizando principalmente a classe social menos favorecida. Têm-se investido na saúde pública, via de regra, índice abaixo do recomendado pelo Ministério da Saúde, colaborando assim para o sucateamento dos hospitais públicos e privados em nosso País.
Um exemplo prático disso foi abordado pelo médico e professor Paulo André Chenso no artigo
"Em boca fechada não entra mosca" (Espaço Aberto, 19/8), quando informou que o valor de uma consulta paga pelo SUS é R$ 7,14. Inacreditável se comparado ao valor de uma visita em nossa residência de um eletricista ou encanador: não sai por menos de R$ 50, o que é absolutamente justo.
Existe no Brasil um programa para combater o câncer de colo uterino, o qual ajudei a elaborar no Paraná em 1997. Conseguiu-se desde, então, uma considerável redução na mortalidade de mulheres, muitas vezes, ainda jovens, por esta doença que ainda assola várias regiões do país. Trata-se de um trabalho altamente especializado, feito por citoescrutinadores, sendo muitos bioquímicos, biomédicos ou biólogos, com a supervisão de um médico anátomo-citopatologista. É o exame preventivo ginecológico, também conhecido como Papanicolau. Porém, o que não é conhecido da população é o valor pago a nós por esse exame: R$ 6,64.
Em 1997, quando do início do programa no Paraná, o valor era ainda menor: R$ 3,74. O que nos revela uma correção de cerca de 78%, em 16 anos, sendo que há 8 anos não há nenhuma alteração nos valores. Qual foi a inflação nesse período? Não seria tão ruim se os funcionários dos laboratórios envolvidos no programa tivessem tido um aumento nas mesmas proporções, assim como o aluguel,água, luz, telefone, etc. E também se a carga tributária em nosso país estivesse a níveis abaixo de 30%, como era naquela época.
Para efeito de comparação, atualmente os convênios médicos pagam por esses exames valores que variam de R$ 20 a R$ 30 enquanto que exames em caráter particular tem a variação de R$ 40 a R$ 80. Fazendo um simples exercício de matemática chegaremos a uma conclusão impressionante. Sobre o valor de cada exame incide cerca de 17% de imposto, o que dá um valor de R$ 1,12, restando R$ 5,52 para a cobertura das demais despesas já referidas. Impossível todas essas despesas somadas ultrapassam esse valor, ficando assim o laboratório num prejuízo que varia de R$ 1 a R$ 4 por exame, dependendo da complexidade de cada um. Que será multiplicado por cada exame a ser realizado. Tem os proprietários dos laboratórios a obrigação de bancar a saúde do povo? Ou tal tarefa caberia aos governos municipal, estadual e federal?
Lógico, está na Constituição. Saúde é um dever do Estado e direito do povo. Neste ano, alguns serviços já deixaram de atender a esse programa e num futuro próximo outros deixarão. Quem irá atender ao programa de prevenção de câncer ginecológico, futuramente, pelos valores pagos pelo governo? Os médicos importados? Provavelmente. É assim que nossos governantes tratam a classe médica. Não há dinheiro para a saúde, educação e segurança. No entanto, para reformas e construções de estádios, aeroportos, visando a Copa do Mundo de 2014, temos. Dinheiro para saciar mensaleiros, temos. Dinheiro para o trem bala, Olimpíadas, vamos ter. Dinheiro para obras inacabadas ou inexistentes, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, temos. Esse é o Brasil que está sendo construído para nossos filhos, netos e futuras gerações. Esse é o brasil que está trocando saúde por dinheiro.

ANTONIO CAMATA é médico anátomo-citopatologista em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res.
Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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