João, 15 anos, não imaginava que tivesse algum talento para as artes até o dia em que uma marmitex de alumínio virou escultura em suas mãos. Ele se lembra bem. Depois da refeição de todos os dias que é servida no Educandário, resolveu brincar com o alumínio. Quando deu por si, estava fazendo arte e não parou mais. Até o presépio de Natal do Educandário foi feito pelo garoto.
A facilidade com que ele manipula o material impressiona. Feliz com a presença da reportagem da FOLHA, quis fazer algo especial para ser mostrado no jornal. A sugestão foi do repórter fotográfico Celso Pacheco e pouco tempo depois uma pombinha, de asas abertas, carregava um letreiro com a inscrição ''paz''. O trabalho consumiu 30 marmitex, que já estavam guardadas pelos profissionais da instituição para as artes do menino.
João, oriundo de uma pequena cidade do interior do Paraná, tem dois grandes sonhos: ser mecânico de automóveis e conhecer seu pai. ''Minha mãe ainda tava grávida quando meu pai nos abandonou, não sei direito porquê. Daí viemos morar em Londrina, de favor, na casa de parentes. Depois, fomos para uma invasão. Lá conheci uns meninos e entrei no crime'', recorda.
João roubou, usou drogas, foi internado, fugiu do Educandário e agora está internado novamente. ''Teve uma fase em que pensava: sou do crime, comigo ninguém pode, mas agora vejo que isso era uma tremenda besteira. Minha mãe não merecia isso. Ela trabalhou demais, muito mesmo, desde que eu tinha uns cinco anos, para dar o melhor pra mim e pra minha irmã. Eu quase não a via, mas ela trabalhava por mim. Se tivesse tido um pai, não estaria aqui. Sinto muito a falta de um pai.''(W.S.)

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