Os desafios para a retomada do crescimento econômico do País são gigantescos. Nem mesmo a redução das taxas de juros, intervenção do governo para estimular o consumo, tem surtido efeito para aquecer o mercado. As pessoas não estão gastando. A resposta pode estar contida nos dados revelados pela Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio). O estudo mostra que a desigualdade de renda atingiu patamar recorde desde 2012, quando começou a ser medida.

Metade da população brasileira, o contingente de 104 milhões de pessoas, vive com R$ 413 mensais, o que corresponde a pouco mais que R$ 13 por dia. Em Londrina, a quantia é suficiente para duas passagens do transporte coletivo, um almoço no restaurante popular, e sobraria a ínfima quantia R$ 1,50 para passar o dia.

O cenário é ainda pior para quem vive o drama do desemprego. Em todo o País, 10,4 milhões de pessoas sobrevivem com R$ 51 mensais. É quase um Paraná inteiro de pessoas que têm de passar um dia inteiro com R$ 1,70. São bolsões de miséria que só se agravam com o passar do tempo, refletindo em um caos social alimentado pelo desemprego, fome, violência e problemas graves de saúde ligados à falta de acesso a itens essenciais como saneamento básico. São 35 milhões de brasileiros sem água tratada, 100 milhões sem coleta de esgoto e 4,4 milhões sem qualquer forma de esgoto.

No outro extremo está a faixa dos 1% mais abastados que abrange somente 2,1 milhões de pessoas. Nesse grupo seleto, a renda média é de R$ 16.297 por pessoa, quase 40 vezes mais do que a metade da base da pirâmide populacional. O Índice de Gini, que mede a desigualdade de renda numa escala de 0 a 1, subiu de 0,538 para 0,545 entre 2017 e o ano passado.

Mesmo passada a crise econômica, a desigualdade segue em ascensão. Pesquisadores apontam que quando começou a melhora na geração de vagas, os desempregados que conseguiram retornar ao mercado de trabalho passaram a ganhar menos em funções semelhantes ou a atuar em postos informais, que também remuneram menos.

Se por muitos anos a inflação nas alturas foi o fantasma brasileiro, hoje quem assusta é a deflação, a inflação negativa. As melhoras na economia têm que se refletir em melhoria de renda para a população, e renda mais bem distribuída. Só assim a economia pode se aquecer novamente. Para isso, no entanto, as mudanças precisam ocorrer em ritmo mais acelerado com a modernização econômica e a derrubada de entraves burocráticos que hoje tiram a competitividade do País.

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