Eles têm em comum o fato de herdarem países em ritmo acelerado de decadência. Os novos presidentes do Equador, Colômbia e Paraguai enfrentarão cada um os desafios peculiares a seus países, mas os três novos mandatários sul-americanos precisarão, a curto prazo, mostrar a que vieram - e se desdobrar para melhorar os indicadores econômicos e sociais, em queda livre, aliás, não só lá mas em todo o continente.
O rei está morto. Viva o rei! O velho bordão medieval pode ser adaptado aos tempos de globalização, apesar da limitação geográfica ocupada pelos três países, tão díspares em suas características e potencialiades. A ascenção de Andrés Pastrana (Colômbia), Jamil Mahuad (Equador) e Raul Cubas Grau (Paraguai) consolida o processo de democratização latino-americana, mas revela a outra face desse processo, que é a fragilidade - para dizer o mínimo - de alguns homens que ocuparam ou estão ocupando a chefia de Estado no continente.
Limitando-nos a esses três países, Pastrana, Mahuad e Cubas Grau sucedem homens que frustraram profundamente seus eleitores, comprometeram a imagem de um continente que busca despojar-se da imagem caricata dos ditadores, civis ou militares, que se entranharam em sua história e, acima de tudo, mostraram quão volátil pode ser a função de dirigir os destinos de um país sem ter a noção exata de onde terminam os interesses do Estado e começam os particulares.
A Colômbia livrou-se de Ernesto Samper, um dos mais idiotizados governantes da história continental. Sua eleição foi essencialmente criminosa, já que o próprio admitiu no final de seu mandato - depois de ter se livrado de várias tentativas de impeachment - que recebeu ajuda dos narcotraficantes para sua campanha eleitoral. Uma ajuda de 6 milhões de dólares, suficiente, num país com as dimensões da Colômbia, para cobrir a maioria dos gastos de qualquer candidato. Nos quatro anos em que ocupou a presidência, Samper assistiu passivamente ao esfacelamento da economia colombiana e ao fortalecimento dos grupos guerrilheiros, de esquerda, e paramilitares, de direita.
Justiça seja feita a Samper: o Cartel de Cali, que sucedeu ao todo-poderoso de Medellin e que foi o grande financiador de sua campanha, sofreu baixas consideráveis, entre elas a de um de seus líderes. Samper abriu fogo contra a cúpula dos traficantes de Cali depois que o financiamento veio a público. Era preciso salvar seu governo - e principalmente sua imagem - custasse o que custasse. Este objetivo imediato, pessoal, teve o mérito de debilitar comprometedoramente uma das maiores organizações criminosas do mundo. O cartel de Cali está agonizante, mas sua agonia - num mercado cada vez mais ávido pela cocaína - abriu a possibilidade de crescimento de uma dezena de pequenos grupos de traficantes.
Mahuad assume um país politicamente estável, pois o Equador é um dos raros países sul-americanos que não têm a tradição de golpes de Estado, mas sua missão é hercúlea: lançar as bases para o crescimento econômico. Ele mesmo admitiu em sua posse que serão necessários ‘‘pelo menos quatro governos sucessivos e bem-sucedidos’’ para melhor os indicadores sociais e econômicos. O Equador exporta petróleo e banana, tem um excelente porto - de Guayaquil - mas sua renda per capita é uma das menores do continente.
Outro desafio para Mahuad é resgatar a imagem presidencial, conspurcada por seu antecessor Abdalá Bucaran, que conseguiu uma das votações mais expressivas da história equatoriana mas pôs tudo a perder com sua índole extremadamente populista que levou a nação a duvidar seriamente de sua saúde mental. A suspeita de que era pinel, associada à certeza de que ele, familiares e amigos estavam se beneficiando, e muito, economicamente do governo custou a destituição de Bucaran. Mahuad é sério, de temperamente tímido, e dele pode se esperar tudo, menos que comece a demonstrar demência em pleno exercício da presidência. A não ser que o destino...
Juan Carlos Wasmosy assumiu há cinco anos a presidência do Paraguai quando a economia daquele país já dava sinais evidentes de estagnação. A prosperidade gerada pela construção de Itaipu acabara concentrada em algumas famílias, entre elas a de Wasmosy, enquanto o resto da nação já não tinha mais como ficar com as migalhas, que se volatizaram após o fim das obras. O quadro era negativo e Wasmosy contribuiu para complicá-lo ainda mais.
Politicamente inepto, Wasmosy poderia pelo menos compensar essa carência administrando, ou tentando administrar, uma economia em acentuada desaceleração. Não o conseguiu e, para agravar ainda mais, misturou seus negócios particulares com os do Estado e, por isso, está respondendo a vários processos.
A posse de Cubas Grau encerra um período de tensão, iniciado quando Wasmosy ordenou a prisão do general Lino Cesar Oviedo, que ousou, apoiado em carisma e na credibilidade que conquistou após desempenhar o papel de protagonista na deposição do general Alfredo Stroessner, denunciar alguns negócios sombrios do presidente. Entre eles, a tentativa de Wasmosy de abocanhar a construção da segunda ponte entre Foz do Iguaçu e Ciudad del Leste. As denúncias de Oviedo fizeram ruir o projeto, mas o presidente não o perdoou. O general não pôde concorrer à presidência depois de ter sido indicado pelo Partido Colorado, ao qual pertence o próprio Wasmosy, mas foi a evocação de sua imagem e a promessa de sua libertação que deram a vitória a Cubas Grau.
Três países, três novos presidentes, três homens que deixaram ou estão na iminência de deixar o poder com suas imagens desgastadas. Mas a mesma sombra, a mesma pergunta: quando nosso continente terá governantes sérios, à altura da missão a que se propõem e das necessidades de seus povos?
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é jornalista da Folha

mockup