Três fábulas atualizadas
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de maio de 1998
J. Roberto Whitaker Penteado O pastor e o lobo 
Havia um pastor chamado Expedito, que era quem tomava conta dos carneiros do reino. Ele era muito brincalhão e gostava de divertir-se, periodicamente, com uma peça de decidido mau gosto. Era assim: volta e meia ele descia a colina gritando Lobo, lobo... vem aí o lobo... escondam-se!
Os reinóis, muito crédulos, apavoravam-se e entravam todos em suas casas, pondo-se a rezar, até que o pastor voltava, horas depois, tendo dado boas risadas com o Rei Carlão, que era seu amigo, e avisava falsamente: O lobo já foi embora...
Muito panacas, os súditos saíam de suas casas, muito contentes e gratos ao pastor Expedito e ao Rei Carlão, por tê-los protegido, mais uma vez do lobo que nunca viam.
Durante anos, o pastor assim brincou, e os cidadãos nunca se deram conta de que não havia lobo nenhum e que aquilo era simples e periódico exercício do poder do pastor Expedito e do Rei Carlão.
O Rei Carlão foi substituído pelo Rei Fernando, que aposentou o pastor Expedito com uma gorda pensão do INPS e nomeou Elpídes como novo pastor. A brincadeira do lobo recomeçou e nunca falhava. Algum tempo depois, Elpídes foi substituído por Genilson, que retomou a brincadeira e depois por Ligúrio... A fábula tornou-se, então, monótona, porque a credulidade do povo era verdadeiramente infinita.
A roupa nova do rei
Havia um rei, muito vaidoso, que gostava de desfilar nu, acompanhado por grande séquito de nobres, mestres-sala, passistas e porta-bandeiras, fazendo com que a Imprensa Real anunciasse ao povo que vestia as mais belas roupas, criadas pelos melhores costureiros e estilistas de Paris, Milão, Fortaleza e Belo Horizonte.
A mania do rei tinha dois motivos: primeiro, era muito narcisista e gostava de se exibir nu pelas ruas do reino; segundo, como era muito religioso, sabia que o real sacerdote não via com bons olhos o seu real exibicionismo, e daí a necessidade da campanha de relações públicas.
O povo via o rei passar nu, e bem lá no fundo muita pessoas achavam que o rei não estava com aquela bola toda e que, em matéria de nudez, preferiam ver Xuxa, Carla Perez, ou até mesmo o Ney Matogrosso. Mas ninguém tinha coragem de reclamar.
Algumas poucas crianças, que cochichavam com seus pais perguntando se o rei, afinal de contas, não estava nu, eram mandadas a calar a boca e a deixarem de ser inconvenientes.
Assim passaram-se os anos. O rei desfilando nu e debitando ao Real Tesouro grandes despesas com roupas novas e luxuosas. Era tudo uma grande festa. E o povo a tudo assistia, bestializado.
A menina e a moringa


