Três erros e o precipício
Ciro Gomes
O que deve fazer um democrata equilibrado ante a sequência de fatos e abusos ultimamente noticiados? A mistura macabra de desemprego recorde, aperto de salários, desfinanciamento dos serviços públicos essenciais, traição político-eleitoral, com a notícia infame de ladroeira e privilégios (agravada agora com a prova do que já se desconfiava, qual seja, da participação pessoal do presidente da República no favorecimento de grupos econômicos engalfinhados na mamata da privatização da Telebrás), está levando o povo brasileiro ao desalento e à revolta.
Frases de forte conteúdo golpista já há à esquerda (convocação de eleições antecipadas, renúncias forçada) e à direita (fuzilamento do presidente, fechamento do Congresso) e eu fico matutando aqui que isso tudo está acontecendo menos de cinco meses depois da posse do mandato obtido a qualquer preço na reeleição. E, a despeito da propaganda enganosa do governo, num momento em que a economia caminha no fio de uma navalha e em que a questão social toma conteúdo explosivo.
A tragédia do presidencialismo nos força a pessoalizar na figura do presidente as possibilidades por tudo isso e, infelizmente, a depender de uma mudança de rumos pessoalmente liderada por ele, se quisermos que a coisa toda evolua dentro da normalidade institucional e se não temos bofe para comemorar o precipício.
Três erros repetidos à náusea produziram este estado deplorável de coisas: um erro de modelo econômico, um erro de articulação política e um erro de conduta pessoal do chefe do Executivo federal. Insistir neles é o precipício. Mudar agora talvez ainda permita ao País resgatar um mínimo de confiança em seus governantes.
Entregue à hegemonia intelectual de professores banqueiros, o presidente insiste em fazer a ferro e fogo andar a matriz da estabilidade/desenvolvimento (?) fundada em imensos desequilíbrios de contas internas e externas, imaginando que seremos salvos da hecatombe financeira (inflação? Calote? Dolarização?) pelo capital estrangeiro de altíssima volatilidade. Juros altos são a febre visível dessa loucura. O que o povo não sabe é que a dívida pública estoura nestes últimos quatro anos de R$ 61 bilhões para algo ao redor de R$ 380 bilhões, que vencem todos em apenas um ano e meio - dois terços vencem nos próximos 90 dias!
Experimentar instituições nacionais que elevem a poupança interna e a vinculem ao investimento produtivo é o caminho estrutural que devemos tentar. A fórmula é um modelo tributário que incide sobre o consumo e a apropriação de rendimentos de capital e de propriedade, revogando as incidências sobre salários e produção. Complementada por um novo regime previdenciário em bases de capitalização, público, descentralizado e sob controle final de trabalhadores, empresários e aposentados. E institucionalmente obrigada ao investimento produtivo.
Só assim o Brasil teria força política para confrontar democraticamente as poderosíssimas forças internacionais e internas às quais vergonhosamente se rende o Sr. Presidente.
Seduzido pelo poder a qualquer preço, o Sr. Presidente afundou numa estratégia imbecil de reformar o País tendo por interlocução a fina flor da picaretagem política nacional - e este foi o seu segundo erro. Ou seja, incrivelmente o sociólogo, aparentemente lúcido, pretendeu, na prática, modernizar o País usando como mão-de-obra justamente os beneficiários das distorções e anacronismos institucionais que flagelam a nós todos. Algo assim como comprar votos para moralizar a vida pública nacional!
CPIs mobilizadas pelos próprios aliados, candidaturas precocíssimas postas já agora na rua, salafrários impondo quadros à administração pública, ‘‘amigos’’ postos na alta hierarquia do partido oficial ainda sem responder ao monte de processos e já atacando publicamente o cerne da política econômica, liderada pelo presidente com a empulhação gradiloquente, tão mentirosa quanto estéril, da tal história de desenvolvimentistas x monetaristas.
Por fim, o terceiro erro, de meu modesto e preocupado ponto de vista: a arrogância pessoal com que se comporta o Sr. Presidente. Com o milagre da estabilidade recente, tudo se escusava, ao mesmo tempo em que se ia criando um passivo generalizado entre diversos grupos sociais, até se disseminar na sociedade a percepção de um presidente frio, frasista, cínico. Certa feita, muito jovem, embora nunca tenha mentido, apanhei-me um pouco assim, quando governador. Graças a Deus, a oposição cearense salvou meu governo com suas críticas. Mas é preciso muita humildade para alguém de cima do poder, cercado de bajuladores, perceber seus próprios erros e ter coragem de mudar.
Diz o povo: errar é humano, persistir no erro é diabólico. Digo eu, com vontade de ver as coisas diferentes: persistir neste itinerário é o precipício.
- CIRO GOMES é ex-ministro da Fazenda e presidente nacional do PPS

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