"São 7 horas da manhã, do ano 2019, pouco mais de três anos após a desistência do cartel do construtoras que ganhou o edital para a construção do "Trem Pé-Vermelho", até ser encampado pelo Batalhão de Engenharia do Exército Brasileiro.
Na zona oeste de Londrina, Alcebíades se prepara para visitar Maringá, conhecendo um fornecedor que ele só sabia existir pela internet - apesar de contatá-lo há vários anos. Para isso, decidiu embarcar no recém-inaugurado modal de transporte ferroviário, com trens ida e volta partindo seis horários ao dia, apesar do anúncio informar que são 12 viagens, sendo oito diurnas e quatro noturnas.
Na zona leste, Marinalva também irá à Cidade Canção para visitar duas empresas, entretanto, a preferência dela, recai sobre o seu carro próprio. Nossos dois personagens, saem de casa juntos, mas Alcebíades, fica em dúvida se vai de carro até o terminal ferroviário de Cambé (estacionar aonde?) ou pega um táxi, enquanto Marinalva já está nas ruas, passando pelo centro de Londrina, indo pelo antigo leito ferroviário da Avenida Leste-Oeste.
Às 7h30, Alcebíades está na "Estação Nova Dantzig", aguardando o trem híbrido eletrodiesel, com capacidade para 250 passageiros sentados e 350 em pé, enquanto Marinalva já está no entroncamento do Distrito de Bratislava, em Cambé. Às 7h45, Alcebíades já se acomoda no assento de fibra de vidro e consulta seu tablet, numa jornada de 125 km, pois as alças ferroviárias na bitola métrica, todas externas para evitar o estrangulamento dos centros das cidades pelo caminho, deixaram o percurso de trem mais longo que o previsto.
Às 8h, Marinalva já está no contorno de Rolândia, trafegando a 110 km/h, enquanto o Trem Pé-Vermelho acaba de chegar no limite de municípios, deslizando sobre trilhos a 60 km/h. Precisamente às 8h15, Marinalva passa na cancela de Arapongas, no segundo dos cinco novos pedágios regionais terceirizados, construídos até Cianorte, enquanto Alcebíades assiste a aproximação da Estação Cavaleiro Roland, consultando o imenso relógio do teto da cabine, impacientemente.
Quinze minutos depois, Marinalva deixa Apucarana para trás, com a paisagem ficando menos plana. Alcebíades admira as novas pontes e aterros para vencer o relevo local, e resolve puxar conversa com os poucos passageiros a bordo.
Perto das 9 horas, não sem antes ter tomado um café espresso em Marialva, Marinalva já está em frente ao escritório de sua primeira visita, enquanto Alcebíades ainda enxerga pela paisagem alguns barracões moveleiros da Cidade dos Pássaros.
Às 10 horas, nossa empreendedora - londrinense de adoção - já está em sua segunda visita de prospecção, pensando na possibilidade de almoçar em Londrina mesmo.
Alcebíades amarra uma animada conversa com um passageiro, um turista de São Paulo desgarrado de um grupo e fã de trens, quando percebe que a manhã já foi comprometida. Estimando sua chegada à Estação Canção, às 10h45, confirmada pelas telas de TV digitais, nos tetos dos carros ferroviários canadenses, Alcebíades se dá conta que os carros não possuem toilletes a bordo.
Marinalva, terminada sua ação, decide retornar a Londrina e, numa coincidência, passa debaixo da ponte ferroviária, na divisa de Maringá, onde o Trem Pé-Vermelho leva a bordo um Alcebíades, agora, um tanto que arrependido por não ter pegado o seu carro 1.0 adquirido em 120 parcelas mensais, para vencer o famoso eixo do Norte do Paraná.
PS: os personagens descritos acima são fictícios, entretanto, os cenários apresentados são reais e plausíveis. Os estudos para o Trem Pé-Vermelho, no próximo ano de 2015, já estão com seus prazos de validade vencidos, pelo menos desde o ano de 2009 e a economia, os negócios, as pessoas e as logísticas que se apresentavam possíveis, não mais atendem às nossas atuais necessidades e, acima de tudo, o mais importante desses cenários todos: a Londrina da forma e com os métodos que radiografaram não existe mais, já tem pelo menos 25 anos.

CHRISTIAN STEAGALL-CONDÉ é arquiteto em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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