''Trazemos pouco e levamos muito''
Veteranos na distribuição de sopa, o grupo ''Sopa, Vida e Oração'' começou sem lugar fixo, percorrendo as ruas da cidade durante a noite. Com o tempo já são sete anos de trabalho eles acabaram se fixando na Concha Acústica, no Centro de Londrina, onde voltam todas as terças-feiras. A experiência trouxe organização: a comida é preparada na casa de uma das voluntárias e o grupo formou uma rede de ''padrinhos'' que contribuem com R$ 3,00 por mês, cada um. ''Com esse dinheiro a gente compra tudo que precisa e coisas de qualidade. Servimos sempre em prato de louça e tomamos a sopa com eles, como se fossem nossa própria família'', conta Maria da Conceição Costa Matos, coordenadora do grupo.
Os ''fregueses'' da sopa não são só moradores de rua. De acordo com as voluntárias, também aparecem pessoas que trabalham à noite, taxistas e garis. ''O público varia muito, tem gente que está só de passagem pela cidade. Eles têm carência de tudo, não só de comida. São pessoas abandonadas e todos têm uma história triste para contar. Afinal, ninguém escolhe uma vida dessas'', pondera Maria. Como todo precursor, o grupo enfrentou também oposição. ''Fomos muito criticados, no início, principalmente por moradores dos prédios da rua que ficavam incomodados e chegaram a fazer um abaixo-assinado para impedir o trabalho'', lembra. A solidariedade venceu o preconceito. Com o tempo, os moradores perceberam que a distribuição da sopa não representava ameaça.
Maria entende que o maior desafio deste tipo de trabalho é conquistar a confiança das pessoas: ''É um trabalho lento. Eles chegam muito machucados e demoram para estabelecer qualquer relação com a gente'', reconhece. No entanto, cada vitória vale qualquer esforço e se torna uma memória preciosa. ''Me lembro de um senhor que veio de Santa Catarina trabalhar em Londrina, chegou aqui, perdeu todo o dinheiro, começou a beber e tinha vergonha de voltar para casa. Eu consegui descobrir a família dele, fiz contato, eles estavam desesperados à procura desse homem. Nós levamos ele para lá e foi uma emoção enorme ver a família se reencontrando. Até hoje ele liga pra gente de vez em quando'', conta.
A falta de clínicas de internamento para dependentes químicos também é a maior dificuldade encontrada pelo grupo. ''Já fizemos vaquinha para arrumar dinheiro e levar gente para fora de Londrina porque aqui não tinha onde internar. O meu maior sonho é ter um lugar para levar essas pessoas que querem uma nova chance'', afirma Maria. Foi assim com um rapaz que morava dentro de um túmulo em um dos cemitérios da cidade. ''Ele comia a comida que os japoneses levavam para os mortos. Aquilo cortou meu coração. A gente conseguiu interná-lo e hoje ele está bem, trabalhando e com uma vida nova''.
A sopa mudou também a vida de Maria. ''Eu ouvia falar que a gente tinha que amar o próximo e queria experimentar isso na prática. Esse trabalhou mudou os meus valores. Eu achava que tinha problemas e convivendo com essas pessoas eu percebi que sou muito feliz, que tenho muito mais do que preciso. Hoje, eu não imagino a minha vida sem eles'', garante. Ao contrário do que parece, ela afirma que recebe muito mais do que doa: ''A gente tem muito para dar e descobre isso. Nós levamos muito pouco e saímos de lá carregados de emoção e gratificados''. P.F.





