O que leva uma pessoa a inª vadir uma sala de cinema e atiª rar contra dezenas de pessoas? Loucura ou ato premeditado? O ataque promovido por James Holmes, de 24 anos, há pouco mais de uma semana na cidade de Aurora, no Colorado, estado norte-americano, deixou 12 mortos e chocou o mundo.

Situação semelhante já ocorreu no Brasil. Em abril de 2011, Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, assassinou 12 adolescentes da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, antes de ser morto por um policial.

Para o psiquiatra, psicólogo clínico e chefe do Laboratório de Hipnose Forense do Instituto de Criminalística (IC) do Paraná, Rui Fernando Cruz Sampaio, os autores de ambos os ataques são pessoas esquizofrênicas com fortes indícios de delírio mental. Nesta entrevista, ele expõe as diferenças entre os comportamentos de psicopatas e esquizofrênicos e o tratamento para ambos os casos.

FOLHA - Os autores dos ataques em Aurora e em Realengo são psicopatas ou esquizofrênicos?

RUI FERNANDO CRUZ SAMPAIO - Ao fazer uma análise prévia, há indícios de esquizofrenia. O psicopata tem um transtorno de personalidade e normalmente possui uma frieza muito grande, não demonstra os sentimentos. Diante do sofrimentos das pessoas, por exemplo, ela fica impassível. O psicopata em geral é uma pessoa sedutora, falante, inteligente e extremamente manipuladora. Pode cometer desde estelionatos até crimes violentos. Além disso, pode ter uma personalidade psicopática, mas não um comportamento psicopático.

Não posso emitir um diagnóstico preciso por falta de dados e de conhecimento das informações, mas, pelo relato das pessoas que conviviam com o rapaz norte-americano, por exemplo, ele chegou ao cinema dizendo que era o Coringa (vilão do filme Batman), e depois, na delegacia, afirmou que era o próprio Batman. Com base nisso, percebe-se que ele incorporou o personagem e, neste caso, começou a misturar fantasia e realidade, ou seja, um transtorno mental. Assim, a príncípio, me parece um caso grave de esquizofrenia que culminou com o surto psicótico durante o ataque ao cinema. Então a impressão que me dá é que, apesar de ter construído tudo antes, premeditado o crime, instalado bombas no apartamento, esperado acontecer a estreia do filme, existia um grande delírio por trás disso, chegando a uma agressividade muito alta.

Quais as outras diferenças entre um psicopata e um esquizofrênico?

Outro exemplo da psicopatia é que ele não demonstra remorso pelo crime cometido, não se arrepende. Isto só acontece se ele for pego, daí demonstra um arrependimento. Para se ter uma ideia, hoje em dia, as prisões estão cheias de psicopatas, várias pessoas que cometeram algum tipo de crime. Um psicopata não necessariamente precisa cometer algum ato de transgressão, agora, quando observamos aqueles que já cometeram algum crime, a grande maioria possui o transtorno de personalidade. Como exemplo, podemos citar o caso do Bandido da Luz Vermelha. Ele passou 30 anos preso e, quando saiu, começou novamente a cometer delitos ligados a estupro sexual. Tanto que o seu compadre o matou por tentar abusar da mulher dele. Agora, no caso da esquizofrenia, que me parece ser o caso do norte-americano, e do atirador do Rio de Janeiro, eles agem em função de delírios, mesmo planejando a ação por muito tempo. E, na maioria das vezes, chegam a se matar quando percebem que podem ser pegos porque ainda estão sob efeito de um surto.

Existe tratamento específico para esses casos?

Nestas situações, em geral, a pessoa vai para um manicômio e tem um tratamento psiquiátrico, com medicamento. Mesmo assim, quando os casos estão bem arraigados, o resultado é praticamente nulo. A psicopatia, por exemplo, é corrigível quando se trata de uma criança, com 8 ou 9 anos. Já trabalhei em clínicas de psiquiatria e já trabalhei com um adolescente que já cometeu crimes, tentativa de abuso sexual, pequenos delitos e transgressões. No caso do psicopata, geralmente o objetivo é a quebra de leis e do comportamento social. Então se você consegue tratar a patologia até os 16 anos, ainda é possível fazer uma certa mudança, com terapia e farmacologia. Se a partir dos 16 não ocorrerem avanços, daí sim é bem provável que a personalidade psicopata venha à tona.

É possível identificar um momento chave para que ocorressem esses ataques?

Via de regra tem como determinar isto. Provavelmente algum fator de estresse muito grande. Por exemplo, numa situação de esquizofrenia grave, um paciente passa por um tratamento psiquiátrico e nunca chega a um ponto de agressividade. Mas, de repente, se ele não estiver bem medicado ou mesmo com a medicação (em dia), ele pode, por um fator específico desencadear a situação. Na esquizofrenia, que é uma doença psicótica grave, também entram outros transtornos mentais, como o transtorno delirante ou esquizoafetivo que acabam se misturando. E a pessoa pode nunca desenvolver este transtorno durante a vida. Entretanto, uma situação pode desencadear, seja um problema familiar, pela maneira como foi criado, problema afetivo ou relacionamento. Se a pessoa sofreu ou sofre um bullying, como ocorreu no caso do atirador do Rio, que foi vítima de humilhação durante a vida escolar. De repente isso funciona como um estopim.

E o comportamento neste tipo de casos? É identificável?

Pelo que percebi deste caso nos EUA, o rapaz era retraído, não tinha convívio social. E a esquizofrenia é um distúrbio afetivo. E o indíviduo com esquizofrenia se sente excluído, rejeitado, não se comunica. Ele projeta e acredita que os outros podem estar perseguindo ele, ou estarem contra. Daí ele desenvolve esses delírios de perseguição.

E com relação aos EUA, é possível que tenha ocorrido uma situação anterior que desencadeasse o ataque no cinema?

Não temos maiores detalhes, mas tenho a impressão e vi uma reportagem dizendo que ele tentou se inscrever numa escola de tiro. O dono da escola ligou para a casa do jovem e achou muito estranho porque a voz dele parecia estranha, como se fosse a voz do Coringa. Então, na própria secretária eletrônica do criminoso, ele já estava assumindo outra personalidade. O caso era grave e o delírio já comandava suas ações

É comum esses criminosos anunciarem uma causa para cometer os crimes? Como se dessem uma justificativa?

É sim. Na época do ataque no Rio, Wellington dizia que era filiado a uma facção do Oriente Médio e tudo isso, geralmente, fazia sentido na cabeça dele, como complemento do delírio. E nos casos psicóticos graves e de esquizofrenia também existe a alucinação, que pode ser visual, auditiva, olfativa. Essas pessoas podem enxergar vultos em lugares onde não existe nada; sentir cheiros estranhos e diferentes, sem que ninguém sinta o mesmo; ou ouvir vozes quando se está sozinho.

E, geralmente quando isso acontece, a pessoa acredita que está sendo perseguida, e que pode sair atirando para se livrar disso por ouvir vozes ameçeadoras.

Esses ataques aconteceram em locais com grande quantiª dade de pessoas, seria uma maneira de chamar a atenção?

Pode ser. Às vezes em relação ao psicopata, ele quer aparecer, então comete o crime ou até mesmo assume um crime que não cometeu para ser reconhecido. Em alguns casos, em função do delírio, isto pode acontecer com um esquizofrênico grave. Na cabeça do atirador do Rio ele estava purificando aquelas almas, aquelas pessoas. E, no caso fez uma escolha em massa, porque na cabeça dele estaria fazendo uma limpeza social. Me lembro de um caso recente, de abril deste ano, dos canibais de Pernambuco. O criminoso escolheu aquelas pessoas, matou, tirou a carne e usava para fazer coxinhas. Vi a entrevista dele na delegacia, em que dizia que era para purificar aquelas pessoas escolhidas por causa de números que estavam na sua cabeça. E por causa da combinação dos números tinha que ser realmente aquelas pessoas. Nesse delírio vê-se uma construção monstruosa e que não tem nenhum sentido na nossa percepção, mas para eles têm uma fundamentação enorme. Nestes casos percebe-se que eles agem em função de um delírio, uma alucinação.

Entre os casos em que o senhor já trabalhou, quais chamam mais a atenção?

Um caso foi o do Chico Picadinho, que ele pediu para continuar preso mesmo já tendo cumprido a pena, porque senão iria continuar matando. Ele assassinou uma prostituta, foi preso, cumpriu a pena, foi solto e no dia seguinte matou outra prostituta. Ele fazia picadinho das vítimas, jogava na privada e dava descarga. O caso aconteceu há mais de trinta anos.

Outro que me lembro é sobre o Maníaco do Parque, que é o típico psicopata. Ele conversava com as vítimas e as convencia a andar de moto, inclusive com convites para modelar. Além disso, teve o caso do cinema em São Paulo, no ano de 1999, em que um estudante de Medicina, entrou atirando numa sessão, matando três pessoas. O caso dele foi diagnosticado como esquizofrenia grave.

Um filme ou jogo violento pode influenciar ou despertar a ira de um esquizofrênico?

A grosso modo não, mas não podemos excluir totalmente esta possibilidade. Todas as pessoas têm um senso crítico balanceado, e diferem aquilo que assistem do que realmente pode ser feito. O problema é quando uma pessoa já fragilizada e com distúrbio de alteração mental tem acesso a esse tipo de material. Porque ela pode balançar e começar a confundir as coisas. Achando que aquilo é real e possível. Isso pode acontece com jogos eletrônicos. Tem alguns com violência extrema. Nem por isso os adolescentes vão sair por aí fazendo a mesma coisa. Mas entre assistir uma coisa saudável ou algo violento é preferível algo saudável. Se você pega um adolescente com problemas isto é perigoso. Já atendi um de 14 anos que já tinha quatro crimes nas costas. Então para ele, um crime a mais um a menos não fazia diferença. Se ele assistisse um filme ele seria incentivado. Então depende muito do senso crítico de cada um. Diria que para a maioria das pessoas não há problema nenhum, mas se alguém está fragilizado e com um quadro psicótico grave pode sim ser influenciado.

A idade de 16 anos é o limite máximo para conseguir identificar traços esquizofrênicos ou de psicopatia grave. Mas existe a possibilidade de uma pessoa manifestar sintomas de psicopatia ou esquizofrenia quando for mais velho?

Existe. Mas geralmente isso se manifesta ainda na infância, com 8, 9 anos, brigando com os amigos na escola, em tentativas de abuso. Aquela criança malvada por natureza, que pega o gato e maltrata, joga um sapo na fogueira. Digo isso porque já atendi casos assim. Então já se vê uma perversidade desde pequeno. Então aí é a hora de intervir e mudar isso. Se conseguir uma mudança isso deve ocorrer até os 16 anos. Se não conseguir mudanças, a probabilidade dele se tornar um futuro psicopata é muito grande. Já começa desde pequeno. E começa a progredir para crimes maiores, como tráfico, homicídios, entre outros. Tem um outro ponto relevante. A esquizofrenia grave se manifesta na faixa entre os 16 e 25 anos. Que é a faixa etária em que se encaixam tanto o jovem atirador do cinema nos EUA, como o ex-estudante da escola do Rio de Janeiro. É bem onde ocorre essa manifestação. Acima disso é muito raro ocorrer uma manifestação esquizofrênica.

O meio médico discute como deve ser o tratamento alternativo à pena comum para esses casos?

Sim, existe. Dentro da psquiatria forense o que tem que se provar é se quando a pessoa cometeu o crime estava com perturbação mental, ou seja, ela pode ser declarada inimputável. Então, por exemplo, no caso de Holmes, eles vão tentar comprovar que no momento em que estava atirando ele estava com essa perturbação, diferentemente de um psicopata, que sabe o que está fazendo. Será que ele teria condições de avaliar o que está fazendo no momento? Nestes casos o indivíduo é encaminhado para um manicômio sob a custódia do Estado. Agora se ele é considerável imputável, ou seja, estava ciente do crime que cometeu, ele segue para a prisão, com a pena estipulada pelo juiz. Além disso, também existe a semi-imputabilidade, onde a pessoa sabe o que estava fazendo, mas não teve condições de se autodeterminar por uma força maior. Neste caso cabe a cada juiz determinar a pena ou medida de segurança.


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