Transtorno que poderia ter sido evitado
Se é principalmente do pecuarista a responsabilidade de zelar pelo seu rebanho, protegendo-o sobretudo das doenças, o Governo peca por não policiar fronteiras e evitar que gado contaminado uma possibilidade no caso da frete aftosa entre no País. É um momento em que também se questiona porque o Exército nacional, que dispõe de mais de trezentos mil homens, não é acionado para tarefas de fiscalização e repressão, que devem ser permanentes. Esta é a função do Governo. Se verbas orçamentárias para esse fim são contingenciadas e não liberadas, também não existe um programa de vigilância sistemática. Existe sim, nas correntes do petismo, uma postura ideológica contrária a classes produtoras como a dos pecuaristas, pela falsa imagem de que são latifundiários e responsáveis pelo problema dos sem-terra, mas ocorre que as falhas governamentais estão presentes em todos os setores. Por mais que o ministro da Agricultura e Pecuária, Roberto Rodrigues, tenha se pronunciado em defesa das questões de sua área, incluída a sanidade animal, e o seu colega Luiz Furlan, da Indústria e Comércio, se ufane do superávit da balança comercial, a liberação de verbas para contenção de males como a febre aftosa depende do homem-chave do Governo, que é o titular da Fazenda, Antonio Palocci, pouco sintonizado com aqueles segmentos da cadeia produtiva. O descaso vai se alongando até que o mal se instala, semeando o temor de que a doença se alastre para outros Estados. Os prejuízos são enormes, porque fica afetada também a confiabilidade dos importadores, que podem suspender também a compra de frango e de carne suína. As importações cessam abruptamente, prevendo-se que só o Paraná perca 25 milhões de dólares nos últimos três meses deste ano. A Federação da Agricultura do Paraná acena com prejuízo mais assustador, que alcançaria 900 milhões de dólares até o final do ano que vem, apenas com a queda das exportações de carnes. Mas os negócios internos do setor também serão atingidos. Na verdade já o estão sendo. Os pequenos produtores de leite estão alarmados. Também frigoríficos suspenderam compras e há uma inquietação implantada, que de sua vez vai gerando efeitos nefastos em progressão, atingindo outros segmentos. Porque, se algo atinge a agricultura e a pecuária, tudo o mais sofre abalos. Se gado doente pode estar entrando no Brasil por via do Paraguai significando que também existem os compradores coniventes é função do Governo estar atento a esse problema. A faixa fronteiriça por policiar é extensa mais de 700 quilômetros de divisa seca, aberta e sem vigilância mas o Brasil pode dispor do contingente das Forças Armadas e todo o seu arsenal de terra e ar, e não apenas para essa missão mas para todas as que reclamam a preservação de interesses da pátria. Falta apenas comando e disponibilização das verbas necessárias. Exercer governo é também assumir tarefas dessa envergadura, que o mais a cadeia produtiva privada fará. É incrível que foi necessária a pressão externa, por via da suspensão de compras (caso da carne) para que os governantes se mobilizassem. O que poderia ter sido feito antes, e não foi, resulta em prejuízo sem conta e em sério risco para todo o rebanho brasileiro.





