Aos 46 anos, o secretário de Infraestrutura e Logística do Paraná, José Richa Filho, irmão do governador Beto Richa (PSDB), tem um grande desafio: resolver os gargalos do transporte no Paraná.
  Em relação a rodovias, são 12.373 km de estradas administradas pelo governo estadual, apenas 266 km de pista dupla. As federais somam 3.422 km, 702 deles duplicados. As concessionárias de pedágio administram 2.768 km desde 1998, dos quais 2 mil km são de pista simples.
  A malha ferroviária é tímida e o transporte hidroviário praticamente inexiste. Os portos de Paranaguá e Antonina carecem de grandes investimentos para os próximos quatro anos, em torno de R$ 1,1 bilhão, de acordo com a Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (Appa).
  Tudo isso diante de um quadro atual de grande produção agrícola e aumento sistemático da frota de automóveis; ao mesmo tempo em que o governo estadual declara não ter dinheiro, atravessando uma fase de 90 dias, que iniciou em 3 de janeiro, de moratória, suspendendo o pagamento de prestadores de serviços e de contratos firmados no governo anterior.
  O secretário diz que a fase é de elaborar projetos e destaca que, em 2011, as medidas para as rodovias devem ser apenas paliativa.
  Qual é a atual situação da infraestrutura e logística do Paraná?
  Tem bastante problemas. A primeira demanda é trabalhar de forma sistêmica. Não adianta pensar isoladamente. Não adianta resolver só o problema do porto quando não se consegue fazer o escoamento da safra. Trabalhando os demais modais, desafoga-se o setor rodoviário. Há uma quantidade enorme de carros, causando congestionamento nas rodovias; e o que nos deixa preocupados é o tipo de motorista, que não parece estar muito acostumado a dirigir na estrada. Então, é claro que temos que melhorar as rodovias, mas também temos que desafogá-las. Tudo está interligado. Hoje, fazendo uma analogia, estamos tapando buracos, tapando o sol com a peneira.
  Há dinheiro em caixa para resolver os problemas?
  É lógico que o orçamento tem problemas, até por isso fez-se esta paralisação de 90 dias para colocar a casa em ordem. Tudo vai ser feito com muita responsabilidade. Precisamos ter um diagnóstico mais apurado da real situação do Estado para assumirmos compromissos. Paralelamente, há também a questão dos projetos. Nós percebemos que o governo federal e grupos empresariais do país ou do exterior querem investir no Paraná, mas para isso é preciso que existam projetos. Este é um desafio grande neste ano: conseguir projetos para depois tocar as obras necessárias.
  O senhor quer dizer que o primeiro ano deste governo será apenas para estudos?
  Independente disso, temos conseguido tomar algumas ações e caminhar em paralelo. No Porto de Paranaguá, em apenas 15 dias, conseguimos fazer a dragagem, o que já trouxe grande benefício para a safra. Antes, os navios saíam com 55% da carga e agora conseguem sair com 100%. É claro que não para por aí. Por enquanto, temos uma licença ambiental parcial, mas já conseguimos, junto à superintendência do Ibama, antecipar o restante da licença, que é para o canal, para a bacia de evolução e para as cortinas do cais. Em abril, vamos fazer uma audiência pública e, correndo tudo bem, iniciaremos a dragagem do canal, propiciando ao porto um calado maior para receber navios maiores.
  Falando em ferrovia, já estamos conversando com o governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB), a respeito de uma parceria para a Ferroeste, que está praticamente restrita a Guarapuava e Cascavel. Temos uma perspectiva real de sair do Mato Grosso do Sul e ir até Paranaguá, chegando a quase 1,2 mil quilômetros. Também temos projetos que devem iniciar logo para chegar de Guarapuava até Paranaguá.
  O senhor fala em projetos, mas ao mesmo tempo existem algumas demandas que são urgentes, como a duplicação - pelo menos do trecho urbano, entre Londrina e Cambé - da PR-445. O que os usuários dessa rodovia podem esperar, a curto prazo, do governo estadual?
  Há uma sobrecarga nas rodovias estaduais por falta de investimentos do governo federal nas rodovias federais. Percebendo isso, os técnicos do Departamento de Estradas e Rodagem (DER), há três anos têm trabalhado com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e percebem que os investimentos nas rodovias federais em outros estados são interrompidos quando essas estradas chegam ao Paraná. No final de 2010 foram federalizadas 530 km de rodovias estaduais no Paraná. Neste ano, teremos novidades em termos de investimentos nas federais, com mais de R$ 2 bilhões. É uma série de situações que vão desonerar a estaduais.
  Então, por enquanto, não podemos ter esperança em relação à PR-445?
  Estamos tentando. Mas tudo que conseguirmos agora será paliativo. Estamos estudando para apresentar uma situação mais definitiva e resolver o problema, que sei que é grave. Temos outras situações também, como a PR-323 (Noroeste), pois o trânsito de Maringá para Guaíra aumentou muito.
  O viaduto que seria construído na PR-445 (Zona Sul de Londrina) só seguirá adiante depois da moratória?
  Sim. Só depois do diagnóstico.
  Grande parte das federais está nas mãos das concessionárias. Como está a conversa com elas?
  Estamos sentando para conversar, criando cenários possíveis, acompanhando os movimentos do governo federal. Todo o Brasil está de olho nas concessões federais, que pode ser um caminho para que todos sigam. Fala-se em fluxo de caixa marginal, o Tribunal de Contas da União (TCU) tem cobrado uma posição mais firme da Agência Nacional de Transporte Terrestres (ANTT), mas também estamos atentos ao que acontece no Paraná. Temos uma exigência do governador para tratar do assunto de maneira técnica, não política. Hoje tem se tratado desse assunto nos tribunais. Se as duas partes estão interessadas em discutir, a solução fica mais próxima.
  E qual é a ‘‘solução’’ que o governo do Paraná quer em relação às estradas pedagiadas?
  Existe um contrato, que começou em 1997, e temos que admitir que faltou experiência dos dois lados. O caso do Paraná é único em todo o País, tanto é que os contratos que estão saindo agora são em outro formato, o risco Brasil diminuiu, é outra realidade. Pelo o que eu vi na ANTT, exige-se outro formato, falando em novas obras.
  O senhor cogita, dentro da nova realidade de contratos de concessão de rodovias, pedagiar a PR-445 e a PR-323?
  Eu não descartaria, mas dentro desse novo formato, pois a capacidade de investimento da União, do Estado ou dos municípios é muito baixa. O governo federal tem feito cortes e creio que eles não vão parar por aí. A carga tributária é muito alta. É preciso gastar melhor e menos com a mesma receita. Parcerias são fundamentais para a administração pública.

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