Transpor a muralha é preciso

Maria Lucia Victor Barbosa
Terminou nesta semana a espetacular minissérie da Globo (na verdade uma macrossérie), ‘‘A Muralha’’. Com maestria foram incluídos na obra os elementos que presidiram nossa formação cultural, tanto os relativos ao Estado quanto à Igreja, e que contribuíram decisivamente para legar uma mentalidade que até hoje nos marca.
Sem medo de errar, afirmo que essa mentalidade herdada é que nos mantém atados ao lado atrasado e obscuro de nossa identidade, justamente aquele que preferimos ignorar ou entender como algo imposto por algum algoz imaginário.
Como escrevi no meu livro ‘‘América Latina – em Busca do Paraíso Perdido’’, editado pela Saraiva em 1995, não adianta culpar o almirante Cristóvão Colombo por aquilo em que nos tornamos na América Latina. Não podemos culpá-lo pelos nossos fracassos, como aqueles que preferem as atitudes cômodas. Tampouco faz sentido atribuir nosso atraso ao progresso norte-americano. Nosso subdesenvolvimento, nossa corrupção (que tem vindo à tona de forma estarrecedora ultimamente através de escândalos em prefeituras), nosso populismo, nosso individualismo, nossos Estados patrimonialistas e clientelistas e nossas sociedades desiguais começaram a partir de uma ‘‘embriogenia defeituosa’’ e, aos poucos, cada um de nós desenvolveu à sua maneira a própria barbárie.
Outros conquistadores viriam no rastro de Colombo e Cabral em busca do paraíso perdido onde se encontrava a fonte da juventude, riquezas fabulosas e criaturas sem pecado original. Como em ‘‘A Muralha’’, nessa procura, muitos, em vez de experiências paradisíacas, pereceram em meio à fome e às dificuldades. Mesmo assim, outros seguiram em frente e foram desenhando no grande painel da história os fatos que fizeram da América Latina, em grande parte, o que ela é hoje: ‘‘Este amontoado de espelhos partidos’’. Sociedades forjadas na coragem desmedida do colonizador e na sua crueldade e intolerância, condicionadas desde antigas eras por civilizações piramidais e teocráticas com seus altares rituais manchados de sangue, plasmadas no espírito da Contra-reforma, na cobiça e na aventura, feitas de contrastes e da audácia dos conquistadores. Sociedades ainda em busca de si mesmas e do paraíso perdido, tão parecidas entre si por serem fragmentos de um espelho que se partiu, pois como escreveu Jorge Luís Borges: ‘‘Somos nosso passado. Somos esse quimérico museu de formas inconstantes; este amontoado de espelhos partidos’’.
Tudo isso ‘‘A Muralha’’ retrata de forma impecável. Inclusive, a figura hedionda de D. Jerônimo – que se empenha cinicamente em ‘‘salvar as alminhas’’ e se investe da autoridade do inquisidor por delegação direta de Deus – marca o comportamento da Igreja Católica que na Espanha quinhentista surgirá através da marca sombria incrustada na história, cujo nome é Inquisição. Já existindo na Europa há bastante tempo sob sua forma eclesiástica, isto é, estritamente sob a alçada do Papa, a moderna Inquisição foi introduzida nos territórios de Fernando e Isabel em 1480, como uma questão de Estado. Sob o ato real, interpretado por muitos como fervor religioso, estavam intenções políticas e econômicas. Políticas, pois a instalação da Inquisição fazia parte do propósito real de unificação da Espanha, o que implicava a busca de uma unidade religiosa. Econômicas, na medida em que a perseguição se abateria especialmente sobre os judeus, permitindo à Coroa apoderar-se de seus bens, assim como confiscar aos mouros tudo o que possuíam.
Também as mulheres padeceram os horrores inquisitoriais, acusadas de adúlteras ou bruxas. Nesse último caso, sendo consideradas como sede privilegiada do demônio na fantasia dos inquisidores, deviam se submeter à prova da flutuação, que consistia em jogá-las na água nuas e com os pulsos amarrados aos tornozelos; eram consideradas maléficas as que conseguiam flutuar e que, por isso, deviam ser queimadas.
Mas a ‘‘caça grossa’’ dos inquisidores eram os judeus (seguidos dos mulçumanos). Ana, a personagem da moça judia em ‘‘A Muralha’’, espelha o problema específico dos judeus ‘‘conversos’’, ou seja, aqueles convertidos às pressas e que continuavam a judaizar, ou praticar seu culto secretamente.
Note-se, que a ambição e a inveja causadas pela situação econômica dos judeus, o anti-semitismo de caráter universal e originado em grande parte na atitude da Igreja Católica com respeito ao povo deicida (que matou Deus) e o fanatismo religioso daí decorrente, foram os principais fatores que ensejaram a legislação antijudaica, exigida em 1215 no IV Concílio de Latrão, em Roma.
Em 1235, o Concílio de Arles, numa antecipação fantástica ao nazismo, ordenou que todos os judeus usassem um remendo redondo e amarelo sobre o peito como sinal de sua identificação e seu estigma. Se na Espanha essa legislação foi pouco aplicada, acabou crescendo a tendência antijudaica, que acabou explodindo em junho de 1391, em Sevilha, quando, calcula-se, foram massacrados mais de quatro mil judeus. Violências contra os mesmos ocorreram também em Barcelona, Valência e Toledo, e os que não foram assassinados foram obrigados a se converter aceitando o batismo. Isso, porém, não os livrou de uma perseguição ainda mais acirrada (como a feita a Ana e a Davidão), pois justamente a Inquisição só podia interferir com quem era batizado, e os conversos eram acusados de praticar às ocultas o judaísmo.
Quanto a Inquisição portuguesa, estava ligada à política, à corrupção, à extorsão, a tediosas contendas, à violência, à intolerância, ao fanatismo, como de resto sua congênere espanhola, guardadas naturalmente as peculiaridades lusitanas. Consequência da expulsão dos judeus em 1492 por Fernando e Isabel, só será instituída após muitos vaivéns e subornos, no reinado do D. João III, em 23 de maio de 1536, depois de devidamente autorizada por uma bula papal.
Lembremos que a Inquisição nos legou muitos traços culturais que ainda estão impressos na nossa mentalidade. Por isso, às vésperas do século 21, grande parte da ‘‘muralha’’ ainda precisa ser transposta para que possamos progredir.
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora, professora universitária em Londrina. E-mail: [email protected]

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