Transplante: ponto final na dor
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 12 de fevereiro de 1997
Algaci Túlio 
Quando a minha hora chegar (...) doe meus olhos para um homem que nunca viu o nascer do sol, o rosto de um bebê ou o amor nos olhos de uma mulher. Doe meu coração para uma pessoa cujo coração não causou outra coisa senão intermináveis dias de dor. Doe meu rim para alguém que depende de uma máquina para existir de semana a semana (...).
Essas linhas carregadas de emoção, escritas pelo jovem Jonas Casaril, morto num acidente em 1993, são um retrato da realidade trágica de pessoas potencialmente capazes que têm suas vidas limitadas enquanto aguardam o transplante de um órgão para restabelecer funções vitais.
Na minha vida profissional convivo diariamente com essas pessoas que já têm a alma impregnada de esperança: esperança de vida, que só se materializa pelo fato solidário da doação.
Apesar disso, é pequena a parcela da população que, voluntariamente, doa órgãos para possibilitar outras vidas, quando a sua deixa de existir.
Contribuindo para esta questão, fiz de 1992 o Ano dos Transplantados no Paraná e fui autor da primeira lei que tratou sobre transplantes de órgãos em nosso Estado. Em 1995, ainda como deputado estadual e muitos passos à frente nessa caminhada, com a sensibilidade do governador Jaime Lerner e do secretário Armando Raggio, aperfeiçoamos os mecanismos legais pertinentes à matéria e criamos as Centrais de Transplantes.
Com uma bem organizada estrutura, com a competência e dedicação da médica Cristina Glehn, essas Centrais vêm contabilizando excelentes resultados, com considerável aumento no número de doações e transplantes de órgãos no Paraná.
Agora, o presidente FHC sancionou a lei instituindo a doação presumida (e não obrigatória) de órgãos, seguindo o modelo já adotado com êxito por vários países europeus e também por estados norte-americanos. Uma análise cuidadosa da nova lei mostra que em nenhum momento a liberdade individual de cada brasileiro é violada. Cada um pode dispor de seus órgãos e a vontade da família sempre será respeitada.
Indiscutivelmente, a medida constitui um duro golpe no cruel mercado negro de órgãos para transplante e vai possibilitar o acesso de um maior número de pessoas carentes a esse oneroso procedimento cirúrgico.
Mas que ninguém se engane. Certamente não será com este ato do presidente da República que os problemas na área dos transplantes estarão resolvidos.
Na verdade - e é o que vem discutindo amplamente a comunidade médica brasileira desde que a lei de doação presumida foi aprovada no Senado Federal - mais do que ampliar o número de doações, neste momento precisamos é capacitar a estrutura do sistema de saúde para retirar, transportar e implantar os órgãos.
A experiência da Central de Transplantes aponta uma perda considerável de órgãos em função do transplante inadequado, da precariedade das UTIs e da falta de capacidade profissional nos procedimentos cirúrgicos para transplantes. É lamentável também que muitas unidades de terapia intensiva não notifiquem a Central de Transplantes sobre os pacientes com morte cerebral.
Cessada a polêmica sobre a doação presumida, é chegada a hora de somar esforços para superar esses obstáculos ao restabelecimento de funções vitais e contribuir para a melhoria da qualidade de vida das inúmeras pessoas retratadas pelo testamento do jovem Jonas Casaril, colocando um ponto final nos seus intermináveis dias de dor.


