O primeiro transplante de rim realizado no Paraná completa 30 anos. A operação foi feita no dia 10 de junho de 1973 no Hospital Universitário de Londrina, pela equipe do urologista Lauro Brandina. Os personagens deste fato histórico para a ciência local se encontraram sexta-feira para relembrar como foi feito o transplante pioneiro. Além de Brandina, também estiveram no Instituto do Rim o nefrologista Altair Jacob Mocelin e o paciente Egídio Ramazotti, 56 anos.
Então com 26 anos, Ramazotti era um jovem comum, que jogava futebol diariamente e trabalhava numa fábrica de tijolos da cidade. Um forte inchaço nos olhos, no entanto, o incomodava. Ao procurar tratamento, o diagnóstico foi de insuficiência renal crônica. O acompanhamento médico foi feito por Altair Mocelin. Após dois anos e mais de cem diálises, a equipe decidiu por um transplante de rim.
Para viabilizar a operação, o cirurgião Brandina, que estava em Londrina desde 1971, reuniu uma equipe médica especializada, formada por 25 profissionais, mas apenas três urologistas: Brandina, Mauro Bergonse e Antonio Marcos Fraga. O centro cirúrgico do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que funcionava onde hoje é o prédio da Companhia de Habitação (Cohab), foi reformado e equipado para poder sediar o transplante. A compra do material cirúrgico foi feita pessoalmente por Brandina, em São Paulo.
Na mesma época, Mocelin retornou de um estágio em Boston, nos Estados Unidos, onde havia sido realizado o primeiro transplante renal da história. O investimento teve apoio do então reitor da UEL, Ascêncio Garcia Lopes, e do diretor do HU na época, Lúcio Marchesi.
Alguns dos doze irmãos de Ramazotti fizeram o exame de compatibilidade. O selecionado foi João, três anos mais velho, que enfrentou três dias de viagem de Jaru, em Rondônia, somente para fazer o exame. Ele foi considerado o doador ideal. ''Eram dois jovens, magros e com identidade genética'', explicou Brandina. Além disso, João possuía artéria renal única nos dois rins, fator facilitador do procedimento cirúrgico. Segundo Mocelin, o caso dos irmãos Ramazotti era especial: apesar de não serem gêmeos, eles possuem as mesmas informações no sistema antigênico, que determina a compatibilidade para o transplante. ''Na época, me preocupei mais com o meu irmão. O João estava bem de saúde e eu estava doente'', contou Ramazotti.
A operação teve início às 7h30 e terminou às 11h30. Foi a primeira realizada no Paraná e a segunda no interior do País, já que a técnica já havia sido aplicada em Ribeirão Preto. ''Não foi uma novidade para a equipe médica, mas foi para a cidade, que teve seu transplante pioneiro'', destacou Brandina. A dupla de médicos relembra que na época a operação foi noticiada na Hora do Brasil e comentada por um deputado na Câmara Federal. Em outubro do mesmo ano, a equipe realizou outro feito inédito: o transplante renal de cadáver doador, técnica que não havia sido aplicada nem mesmo no Rio de Janeiro. O transplante renal pioneiro no País foi realizado em 1968. ''Londrina passou então a ser referência também em tecnologia, não só em café'', declarou Mocelin.
No transplante renal, a chance de sucesso imediato é de 95%. Já a expectativa de sobrevida de 25 anos é de 50%. ''O Ramazotti já superou este prazo'', enfatizou Mocelin. A recuperação de Ramazotti foi tranquila, sem rejeição ao órgão transplantado. Para o paciente, o mais difícil é o ''monte de remédio'' que tem de tomar diariamente. Esta é a contrapartida do paciente, após passar pela intervenção cirúrgica. ''A medicação tem de ser para o resto da vida. Só é suspensa se houver algum tipo de complicação, para preservar a vida do paciente'', explicou Mocelin. ''Além de seguir as prescrições médicas, os pacientes devem passar por reavaliações periódicas'', completou Brandina. ''Para mim, nasci de novo. Graças aos médicos e ao meu irmão'', destacou o paciente.

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