Londrina- O médico hematologista do serviço de Transplante de Medula Óssea do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina, Fausto Celso Trigo, garante que os médicos e técnicos da área da saúde são tão bons quanto os dos Estados Unidos, onde fez especialização no Fred Hutchinson Cancer Research Center, de Seattle. Hoje, os procedimentos autólogos, em que o material é coletado do próprio paciente, já são feitos na cidade. Ele acredita, no entanto, que em dois anos o centro londrinense terá capacidade para realizar o transplante alogênico aparentado, com material oriundo de parente compatível.
Para a realização de transplantes alogênicos não aparentados, que são realizados com material genético de pessoas que não possuem nenhum grau de parentesco, ele estima que demorará cerca de dez anos até que a cidade consiga evoluir para o atendimento de casos de maior complexidade.
''O número de complicações é muito maior, a estrutura hospitalar é muito maior, então isso tem uma relação direta não só com a capacidade técnica, como também da logística de apoio ao centro transplantador. Geralmente é realizada em grandes centros universitários e que disponham de uma logística bem-montada. A gente pretende que Londrina chegue a esse ponto também, mas existe um longo processo pela frente'', declara Trigo.
O hematologista avalia ainda a questão ética de casos de concepção de uma criança para obter uma medula compatível com a do paciente. Para ele, a prática é ''recriminável''. Trigo apoia, porém, o transplante em casos de coincidências, quando a mãe da criança que pode se tornar doadora já está grávida de outro filho que pode ser doador de material por meio do armazenamento e congelamento do cordão umbilical.
Doar medula óssea é muito difícil?
Doar não é nada difícil. Basta estar imbuído do desejo de se cadastrar como doador e manter essa chama seja daqui a um ano, seja daqui a um mês. A pessoa se dirige a hemocentros, que são locais de coleta de sangue tradicionais, e colhe uma amostra de sangue. Está feito o registro de doação. A partir daí a amostra é testada e fica em um banco de dados nacional. Uma vez selecionado como doador ele será contactado e volta ao hemocentro, onde repetirá o exame e será submetido a uma bateria de testes. Se for aprovado, será submetido à coleta de medula óssea, que pode ser feita de duas maneiras: a primeira é com anestesia geral, onde o paciente é levado a um centro cirúrgico e a medula óssea é coletada a partir da bacia por meio de punção. E tem uma outra maneira em que a coleta de células-tronco é feita por um aparelho chamado aféride, utilizado para coletar sangue para doação de plaquetas.
Quanto tempo demora isso?
A doação de medula por punção geralmente dura um dia todo, é feita em centro cirúrgico e no dia seguinte a pessoa já está apta a ir para casa. Quando a coleta é feita por aféride, em geral é realizada a coleta e no mesmo dia a pessoa já sai do hospital. O processo dura de quatro a seis horas e depois ele vai embora para casa. É um processo mais simples em que o doador pode pernoitar no hospital por questões de segurança, mas no dia seguinte está totalmente apto a ir para casa.
Londrina conta com um centro para realizar transplantes de não aparentados?
Não, Londrina conta com um centro de transplantes de medula que abriu há menos de um ano que só realiza transplantes com o material coletado do próprio paciente. Em um espaço de um ou dois anos pretendemos realizar o transplante aparentado, ou seja, de um doador para outro, mas constituinte da própria família. Para a realização do não aparentado vão alguns vários anos até que o centro adquira experiência suficiente.
Por que essa dificuldade?
Essa dificuldade decorre da complexidade do processo. Quando você tem um transplante autólogo ele é menos complexo do que o transplante aparentado, que por sua vez é menos complexo que o transplante não aparentado. O número de complicações é muito maior, a estrutura hospitalar é muito maior, então isso tem uma relação direta não só com a capacidade técnica, como também da logística de apoio ao centro transplantador. Geralmente é realizada em grandes centros universitários e que disponham de uma logística bem-montada. Temos a expectativa de que Londrina chegue a esse ponto também, mas existe um longo processo pela frente.
Quanto tempo o senhor estima para isso?
Olha, eu acho que para não aparentado, em torno de dez anos. Depende da evolução que o hospital possa dispor na capacitação logística do hospital.
E como é a situação aqui no Paraná?
Curitiba possui um centro pioneiro no Hospital de Clínicas, da Universidade Federal do Paraná. É um dos maiores centros brasileiros de transplante de medula óssea, inclusive de não aparentados. Mas eles têm uma história de muitos anos.
Qual o primeiro passo para implantar a infraestrutura para realizar transplantes de não aparentados em Londrina?
Necessitamos de laboratório e enfermarias mais adequadas, a própria estrutura do hospital tem de ser especial contemplando um setor de alta complexidade. É uma questão de tempo e de desenvolvimento para chegarmos lá.
Como o senhor avalia a questão dos transplantes nos Estados Unidos, onde o senhor estudou, em comparação com o Brasil?
A facilidade de acesso da população aos centros onde vão realizar esse procedimento é muito maior pela questão do sistema de saúde. Por outro lado, existe uma particularidade nos Estados Unidos em que só tem acesso ao sistema de saúde quem tem emprego registrado em carteira. No Brasil, o Sistema Único de Saúde permite que qualquer pessoa, esteja empregada ou não, tenha acesso ao sistema pleno de saúde. O que faz ter um acesso mais universal, mas ao mesmo tempo dilui os recursos financeiros existentes. Em termos técnicos o Brasil não perde nada em relação aos EUA. As instalações hospitalares nos EUA são equiparáveis somente aos grandes hospitais universitários brasileiros. Você sai do cenário de hospitais universitários brasileiros e a capacitação e a complexidade é bem menor. Isso dificulta a expansão de centros transplantadores no País.
E o que o senhor acha daqueles pais que concebem um outro filho para poder gerar um doador para o familiar?
Eu acho que é uma questão ética muito difícil, muito complexa. Gerar um indivíduo a partir do desejo de obter uma medula compatível é recriminável. Acho que é uma questão ética importante, que deve ser combatida pelos profissionais de saúde. Em nenhum momento você deve gerar uma criança com vistas a ser um doador de medula. O que existe são coincidências de um casal que já está esperando outra criança e, por infelicidade, um outro filho adoece com um tipo de doença que talvez necessite de um transplante de medula no futuro. Aí essa criança nasce e tem o seu cordão umbilical coletado, congelado e armazenado com vistas, talvez, a um transplante. A geração de uma criança para esse fim eu recrimino.

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