Trânsito, descasos e abusos - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de novembro de 1997
Walmor Maccarini 
Pelo comportamento do homem no trânsito pode-se identificar se ele é educado ou grosseiro, responsável ou imprudente, equilibrado ou neurótico, egoísta ou solidário. Como as pessoas se comportam ao volante de um veículo, elas assim o são no trabalho e na sua relação com as pessoas. O que se observa é que os motoristas são pouco solidários e comportam-se egoisticamente, parecendo os únicos donos de todo o espaço. Conhecem pouco as normas que regem essa dinâmica homem/automóvel; e os que as conhecem as infringem muito naturalmente, porque isto é de sua índole.
Salvo as sempre honrosas exceções.
A maioria não aprendeu em auto-escola e também não se tem certeza se estas ensinam corretamente e se não são omissas.
No caso de Londrina, para citar um exemplo próximo, o poder público é também negligente, porque enche a cidade de semáforos fora de sincronia uns com os outros, com isto emperrando o fluxo e enervando o já nervoso motorista. E nunca contemplam o pedestre; ou seja, este nunca tem vez, porque a geringonça tricolor não tem luz para ele.
Os mecanismos de sinalização, verticais e horizontais, são insuficientes em alguns pontos de conflito, ou inexistentes. O engenheiro Mario Stamm, agora à testa do IPPUL, tirou o setor do marasmo e começou a fazer mudanças, e já era tempo nesta cidade de quase 140 mil veículos.
Uma das demonstrações da pouca solidariedade dos motoristas é quando alguém quer passar da direita para a esquerda, ou vice-versa. Quase ninguém lhe dá abertura, por mais que ele acione os sinais. Os mais solidários são ainda os jovens, mas também os que mais correm.
Há os que querem aproveitar o restinho do verde do semáforo e avançam lá de trás em desabalada carreira; e os lerdos e indecisos, que acabam provocando a irritação daqueles mais nervosos, e até acidentes. Mas entre os marmotas e os voadores, ainda são preferíveis aqueles, embora ambos abomináveis. Já o buzinaço é instrumento dos grosseiros.
Nas ruas de sentido único, que permitem duas pistas, muitos trafegam bem no meio, e nem se tocam.
O telefone celular, bem este não tem jeito, porque ninguém irá deixar de usá-lo no tráfego. Fora do sistema viva-voz, que ninguém gosta porque indiscreto, é preciso inventar um celular só para o automóvel, que não utilize mãos.
Há os que, ao estacionar, onde cabem dois veículos só põem o seu, para que fique folgadão... São os egoistas, que não democratizam o espaço.
Donos de estabelecimentos comerciais rebaixam toda a extensão da calçada defronte, ignorando que só têm direito a uma entrada de garagem. E alguns mais abusados ainda afixam aquele cartaz do sujeito a guincho. A Prefeitura e os policiais fazem de conta que não vêm.
Guarda de trânsito, no Brasil, é mais elemento complicador que auxiliador. Ele não sabe resolver uma situação embaraçosa, mas, ao contrário, é capaz de complicá-la. Não foi suficientemente treinado, tem baixa instrução e salário idem. Se, numa situação de emergência, for preciso ele tomar a decisão de parar o tráfego e inverter a mão de uma via, por cinco minutos que seja, ele não terá esse fair play. Digo isto porque, certa ocasião, numa auto-estrada próxima de Nova York, presenciei um policial rodoviário paralisando o tráfego para possibilitar que uma jamanta trafegasse um pequeno trecho na contra-mão, a fim de que retomasse o caminho do qual se extraviara. Então, é o policial para servir (sem suborno) e não só para complicar e punir.
Em Londrina não há sinalização adequada (ou nenhuma) para indicar as entradas e saídas da cidade. As autoridades que cuidam do trânsito parecem desprezar os motoristas de fora.
As pessoas têm carro mas não sabem sair das garagens dos prédios, porque começam a buzinar lá do fundo e saem diretas na calçada, sem atentar que com o barulho das ruas ninguém ouve esses buzinaços, e se ouvem não detectam, de pronto, de onde vêm. As auto-escolas nunca são vistas ensinando como sair de garagens. Muitos não sabem que precisam parar no limite, para ter visão dos pedestres e não atropelá-los. Os exames do Detran, ao que parece, não cobram esse aprendizado.
Os motoristas também não sabem convergir para a esquerda, nas avenidas duplas, quando saem de uma pista para entrar na outra. Ignoram que a manobra deve ser feita como nas rotatórias, descrevendo um circulo perfeito como no sentido inverso do ponteiro do relógio, não imbicando no primeiro canteiro mas no segundo.
Uma medida que reduziria o número de acidentes, nos cruzamentos com preferenciais onde não há semáforo, é não tapar a visão de quem entra nessa via e tem que olhar ou para a direita ou para a esquerda. Então, no lado a ser olhado, não deveria haver carro estacionado, nesse quarteirão. Seria um lado sim e um lado não, ao longo da rua.
E os arbustos altos, nos extremos dos canteiros centrais, têm que ser cortados onde necessário, porque encobrem a visão.
(No próximo artigo falaremos da prepotência de certos guardadores de carros, do abuso de construtoras com seus tapumes, das caçambas recolhedoras de detritos, do perigo dos veículos muito velhos em circulação, dos pizzeiros voadores, das ruas sem as placas de denominação, e um toque sobre as mulheres ao volante).


