Curitiba - O Código Brasileiro de Trânsito (CBT) é 'mais civilizado do que os motoristas brasileiros'. A afirmação é do deputado federal Marcelo Almeida, ex-diretor do Departamento de Trânsito do Paraná (Detran-PR). O parlamentar critica lei que prevê reajuste anual das multas.
O senhor acredita que o reajuste dos valores cobrados de multas hoje possa incentivar os motoristas a serem menos imprudentes?
Não acho que seja por aí. O tema trânsito é muito mais grave. A arrecadação de multa é muito baixa. É irrelevante para o Detran, para os órgãos públicos. O número de veículos que são multados no Paraná não chega a 3% da frota. A maioria das pessoas não toma multa. Há uma impressão irreal de que no Brasil existe uma indústria da multa, mas quando se vai ver os dados percebe-se que a maior parte da arrecadação dos órgãos de trânsito vem de impostos e taxas cobradas de quem tem um veículo. Não é a multa que vai evitar que existam mortes por consumo de álcool no trânsito.
Os valores das multas devem ser revistos?
Há um projeto na Câmara que prevê diversas mudanças no Código Brasileiro de Trânsito (CBT). Uma delas é a correção de uma distorção da lei, porque o país não tem mais UFIR (União Fiscal de Referência). Então tem que passar o valor das multas para o Real. Agora, o que acho é que o valor da multa não faz com que o cidadão seja mais ou menos educado no trânsito.
Qual seria a melhor estratégia para evitar os acidentes mais graves?
Não é pauta para nenhum governo planejar o trânsito. Não se discute trânsito no Brasil: 85% dos municípios brasileiros não têm nenhuma secretaria ou departamento de trânsito.
A que o senhor credita essa despreocupação dos municípios com esse tema?
Na pauta dos prefeitos está a saúde, a educação, o Fundo de Participação dos Municípios (FPM). O trânsito em si não é uma grande preocupação. E é o grande gargalo do país porque no ano passado o Brasil gastou R$ 22 bilhões com assistência a acidentes de trânsito.
O problema do álcool é mais sério em países subdesenvolvidos como o Brasil ou é comum mesmo em países desenvolvidos?
O Brasil é um país em rápida motorização. É muita gente comprando carro e moto porque as cidades não tem um sistema de transporte coletivo mais eficientes. Não dá para andar a pé, de bicicleta. Andar de ônibus não é agradável. O táxi é caro. O grande problema é cada um ter o seu carro. Esse é o momento do Brasil discutir isso. Já tivemos um acerto que foi com a Lei Seca que provocou uma redução no número de mortes no último ano.
Uma punição mais severa é mais eficiente?
Não. O problema não é beber. O problema é juntar a bebida com a direção. O que falta é uma campanha mais enfática, uma mensagem do Ministério da Saúde dizendo: ''Não bebam''. Não se faz isso porque a arrecadação de impostos da bebida alcoólica é enorme no país.
Esse dinheiro arrecadado é usado no quê?
Vai para o caixa do governo, é aplicado em qualquer coisa. Os governos estaduais não têm política de trânsito. E o governo federal está com R$ 1,25 bilhão em caixa do Fundo Nacional de Segurança e Educação de Trânsito (Funset), que são 5% de todas as multas cobradas no país.
A comoção pública que acidentes graves que envolvem motoritas alcoolizados contribui para aumentar a conscientização da população em relação a violência no trânsito?
O maior exemplo disso no Brasil é esse caso do deputado (Fernando) Carli Filho. Eu acho que só tem uma coisa para se tirar disso. De uma desgraça tem que se tirar algo de positivo. Muita coisa que estava encoberta e que apareceu, como esse número enorme de pessoas que estavam com a carteira suspensa e que dirigiam.
Dirigir alcoolizado é um problema cultural?
Beber é um hábito nacional. Principalmente a cerveja. Não existe a cultura de passar a direção para quem está sóbrio. Não é a multa que vai impedir essas pessoas de dirigir. Não acho que essa geração vai mudar. O que pode trazer mudança é a geração mais nova. A educação para o trânsito tem que começar com dez, doze anos. Hoje existe muita ação educativa para o trânsito nas escolas. Há 20 anos não tinha nada. É uma grande diferença.

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