TRÂNSITO - Mau motorista é também mau cidadão
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
Basta sair às ruas para verificar que o tráfego intenso de veículos e o mau comportamento dos motoristas fazem do trânsito um perfeito ''caos''. Atos infracionais - gravíssimos, graves, médios e leves -, podem ser flagrados diariamente nos centros urbanos.
Em entrevista à FOLHA, João Carlos Alchieri, doutor em psicologia, professor universitário e autor de cinco livros na área de avaliação psicológica, fala do comportamento do motorista e discute a indústria de multas no Brasil. Alchieri atesta: falta fiscalização.
Como o senhor avalia o comportamento do motorista hoje?
Não está dissociado do comportamento das pessoas em diversas situações. O trânsito é uma via de circulação coletiva como outras que fazemos uso. Somos pedestres, motoristas, entramos no elevador. No caso específico do trânsito ocorre um fenômeno de acidente e de violência muito marcado pela quantidade e pela intensidade. Esses acidentes causam mais impacto e custos elevados à população e ao país. E eu não diria que só os motoristas não se comportam bem no trânsito, os pedestres também não. É uma questão de educação. A pessoa acha que tem o direito de se comportar assim. Em 2002 teve uma estimativa da Organização Mundial de Saúde em que se verificou o número de mortalidade associada ao trânsito. Num extremo de baixa mortalidade está a Noruega e a Dinamarca, com um indíce de um a cada cem mil por ano. No outro extremo temos Uganda e Ruanda com mais de 200 pessoas a cada cem mil por ano. O que temos em comum nessas sociedades? Pessoas, leis. E de diferente? Educação, valorização da vida. Meu direito não pode partir sobre o direito do outro.
O senhor afirma que o bom motorista, de modo geral, é um bom cidadão...
Dirigimos tão bem quanto somos enquanto povo. A irresponsabilidade em matar crianças e adolescentes nas estradas não é um problema de quem atropelou e sim de todos. A idéia de trânsito é uma educação no coletivo e não do indivíduo. Nós vamos ver melhoras gradativas em gerações subsequentes.
Então a tendência é que o comportamento dos motoristas melhore? Como isso pode acontecer?
Com investimento em educação. Não a educação formal do motorista e sim a educação de todos. Ela não é de domínio do governo para ser ministrada em currículos escolares e cobrada em provões, mas de âmbito familiar, individual e coletivo. Somos pessoas que necessitamos de pessoas, mas devo entender que o meu direito não é maior do que o do outro. Determinadas atitudes não colocam em risco só a minha vida e sim a de outras pessoas.
Atualmente os motoristas estão sendo bem formados nas autoescolas?
Temos uma formação que é maior em horas do que muitos países. Em termos de quantidade verificamos que os motoristas cumprem um requisito legal. Mas não adianta fazer disso um processo avaliativo ou avaliar isso somento no início. É preciso ser feito periodicamente. A autoescola é uma permissão se o motorista demonstrar certas habilidades. A pessoa tem que demonstrar que essa aptidão permanece, não causando acidentes. Se levantarmos o histórico do sujeito poderíamos ter um limite na permissão.
Como o senhor se posiciona diante da indústria de multas?
Uma pesquisa conduzida em São Paulo mostrou que apenas 3% dos comportamentos infracionais foram notificados. Não existe indústria de multas. Tem que ser feita a punição, mas ela não ocorre.
E a punição não acontece por falta de fiscalização?
É falta de fiscalização, mas a culpa é minha porque eu não votei direito para ter órgãos competentes.
E o que fazer? É difícil solucionar o problema?
Eu cobro isso? Mando e-mail? Denuncio situações que limitam os direitos dos outros? Cabe à população querer mudar. O trânsito não é um problema do acidentado. A quantidade de dinheiro que se gasta direta e indiretamente com o trânsito é inimaginável. Não temos idéia do impacto real, mas temos estimativas que já chegaram a US$ 50 bilhões no território brasileiro no final da década de 1990. E esse dinheiro sai da gente. Não vamos ter soluções a curto prazo e lineares.
Mas é possível diminuir o número de acidentes?
Sim. Mais de 80% dos acidentes são decorrentes de falha humana, que podem ser evitados.


