A imprudência no trânsito é um risco diário para milhares de brasileiros. Dados da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet) mostram que em oito anos foram registrados mais de 2,5 milhões de acidentes no Brasil. A consequência: um saldo trágico de 254 mil mortes. Número que poderia ser reduzido com o uso mais frequente do cinto de segurança.

Apesar de obrigatório por lei, muita gente não usa o equipamento. Após perder amigos em acidentes, o empresário Renato Azevedo resolveu tomar uma atitude: desenvolveu e patenteou o Sistema Externo de Controle do Cinto (Sistec), cujo objetivo é facilitar a fiscalização.

Nesta entrevista, Azevedo, que estudou a fundo as causas e consequências dos desastres automobilísticos, explica em que consiste o sistema e alfineta: ''As pessoas têm o cinto de segurança apenas como um adereço para evitar multa.''

Segundo a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), o Brasil gasta R$ 28 bilhões por ano com acidentes de trânsito. Como reverter esse quadro?
Seria utopia dizer que é possível acabar com os acidentes, mas algumas mortes podem ser evitadas com o uso do cinto de segurança. O nosso projeto, que já está protocolado no Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), trabalha sobre isso. Os jovens são os que mais morrem no trânsito justamente por não utilizarem o cinto. É um projeto 100% brasileiro e a nossa ideia é extremamente barata de ser aplicada. Permite que o policial rodoviário federal ou o agente de trânsito visualize de longe se a pessoa está usando cinto de segurança ou não. O governo federal não vai gastar R$ 1,00. As montadoras terão um custo infinitamente barato.

Em que consiste o projeto?
No carro normal existe uma sinalização para indicar que você vai virar para esquerda, direita ou dar ré. Quando você conectar o cinto vai ter uma luz externa na frente, atrás e no painel do carro para avisar quando o cinto está conectado. Se alguém visualizar um carro com duas pessoas e apenas uma lanterna estiver acesa é sinal de que alguém está sem cinto. Esse veículo pode ser parado pela fiscalização.

O que precisa para o projeto ser colocado em prática?
Basta uma resolução do Contran (Conselho Nacional de Trânsito). Oito pessoas precisam se reunir e assinar o projeto. Se isso acontecer todos os carros terão que sair de fábrica com o sistema.

Por que, mesmo sabendo dos riscos e da obrigatoriedade, muita gente resiste em usar o cinto, principalmente no banco traseiro?
Eu não consigo entender. As pessoas têm o cinto de segurança como um adereço para evitar multa. Elas só passam a usar quando acontece uma tragédia com alguém da família ou com um amigo. Aí sentem a dor e começam a utilizar. Dados da Abramet mostram que 97% dos adultos não usam cinto no banco traseiro. Além das mortes, milhares de pessoas ficam com sequelas pelo resto da vida.

As mortes e o tratamento de feridos custam caro. A população paga pela irresponsabilidade dos outros...
Exatamente. Segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) cada morte custa para o governo federal em média R$ 467 mil e cada ferido R$ 96 mil. Calcula-se os gastos com a polícia, ambulância, combustível, leitos ocupados no hospital, medicamentos, materiais utilizados, entre outros itens. O governo gasta com os acidentes 11 vezes mais do que investe no Programa Bolsa Família. São dados alarmantes, que têm solução. Quantos leitos hospitalares são ocupados pelos acidentados? A utilização do cinto também colabora com isso. Os governos já deveriam ter tomado alguma atitude.

Os veículos são obrigados a sair de fábrica com airbags. Qual a importância do mecanismo?
O airbag foi aprovado pelo Congresso Nacional e agora é obrigatório para os dois passageiros do banco da frente. O Congresso teve as melhores das intenções, mas o airbag é um suplemento do cinto de segurança. Sem o cinto ele não tem eficácia. O sobrevivente de um acidente de trânsito deve a vida 70% ao cinto de segurança e 30% ao airbag. Dados do Ipea mostram que os gastos que o Governo Federal tem com acidentes de trânsito representam um terço de todo o dinheiro do Ministério da Saúde.

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