Transição e compromissos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 01 de novembro de 2002
Antonio Delfim Netto 
A volatilidade dos mercados no período que antecedeu o segundo turno das eleições foi impulsionada por três motivos: o primeiro e mais importante desses motivos foi a percepção da soma de dificuldades de ordem econômica que o atual governo transfere para o próximo.
São problemas derivados dos erros de política econômica que conduziram o País a uma sufocante dependência dos mercados financeiros internacionais, obrigando o governo a contratar três empréstimos de emergência junto ao FMI no valor de 90 bilhões de dólares.
O segundo motivo é de origem externa e deriva basicamente do fato que a economia americana continua flertando com a recessão, depois do ataque terrorista e do aparecimento das fraudes contábeis que abalaram o mercado de capitais. Isso criou um clima de insegurança para os investimentos, aumentando a aversão ao risco nas aplicações, tanto internamente nos EUA como em relação aos mercados dos países chamados de emergentes.
Um terceiro fator do aumento da volatilidade - o terrorismo político - foi ''deletado'' no dia 27 de outubro na urna eletrônica. Era um falso motivo e os eleitores simplesmente ignoraram a tentativa de constrangê-los com a alegoria da catástrofe. O próprio ''mercado'' uma semana antes já tinha se convencido da vitória do candidato da oposição e se manteve calmo. A ''aposta'' no desastre perdeu o sentido.
Abandonada aquela motivação, restam os dois outros fatores que obviamente vão continuar influindo no comportamento dos agentes. Devido ao fato que chegamos ao final desse segundo mandato com a economia brasileira extremamente vulnerável no exterior, é fundamental prosseguir no esforço de ampliar as exportações e os saldos comerciais. Isso dará ao próximo governo algum tempo e melhores condições para realizar a tarefa de recuperar a credibilidade do País no exterior, como preliminar para a retomada do crescimento e a ampliação do emprego, que são duas propostas centrais da campanha eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva.
Conhecido o resultado, o presidente eleito reafirmou os compromissos da ''Carta de Ribeirão Preto'' que permitiram ao PT participar do processo político em sua plenitude, sem tergiversações quanto aos princípios da ordem econômica, jurídica e social consagrados na Constituição de 1988. Isso é importante porque facilita a compreensão interna e externa em relação ao nosso processo político e aos objetivos econômicos do próximo governo.
ANTONIO DELFIN NETTO é economista e deputado federal pelo PPB de São Paulo


