Transgênicos: Trazê-los ou não?
A sociedade brasileira vem acompanhando com grande interesse o impasse a respeito da liberação da importação de milho transgênico. Apesar de liberada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para utilização em formulação animal, a importação de produtos geneticamente modificados se encontra sob análise do Poder Judiciário há mais de 30 dias, desde que grupos ambientalistas e de defesa do consumidor entraram com representações judiciais contra essas operações.
Tal impasse, em conjunto com as geadas que dizimaram 70% da produção de milho safrinha plantado no Paraná o maior produtor do grão no Brasil vem trazendo efeitos nefastos sobre os custos de produção da proteína animal. Esta situação tem prejudicado especialmente a avicultura, que tem sofrido os efeitos da alta do preço do milho, principal matéria-prima do setor.
Em consequência deste cenário, muita coisa já mudou na avicultura nacional. Tentando estabilizar a oferta entre consumo e estoque de milho, e por conseguinte, para tornar a atividade viável, o setor já reduziu a produção de aves em 20% e demitiu em igual proporção. Porém, os efeitos climáticos voltaram a pressionar os preços do milho, o que exige que o setor realize importações para continuar produzindo.
Essa possibilidade está fazendo a discussão sobre a importação de transgênicos deixar o terreno racional e migrar para o emocional. Entretanto, bom ou ruim, o fato é que os transgênicos já estão no Brasil, por meio de produtos importados, ou pela ação de contrabandistas de sementes, o que comprova que poucas são as chances das proibições triunfarem perante o forte apelo econômico das novidades tecnológicas.
Será que a sociedade brasileira não teria mais vantagens se ao invés de restringir a entrada dos produtos transgênicos no País, o governo organizasse essas importações por meio de regras claras, exigindo inclusive a rotulagem dos produtos destinados ao consumo humano baseados nessa tecnologia? Com certeza, se optar pela normatização dessas operações, o governo vai estar desestimulando os negócios feitos à sombra da clandestinidade, ao mesmo tempo em que vai oferecer ao cidadão o direito de escolher livremente o produto que pretende consumir.
Enquanto a Justiça não apresenta um parecer final sobre o assunto, a camada mais pobre da população já começa a sofrer as consequências do impasse. O frango abatido já acumula uma alta de 50% nos últimos 30 dias, o que afasta o consumidor mais humilde da possibilidade do consumo da proteína animal. Com o quilo do frango próximo a R$ 2,00 o consumidor das periferias das grandes cidades começa a conviver com um preço proibitivo.
É importante que se diga que a quase totalidade da oferta de frango inteiro in natura ao consumidor é feita pelas pequenas e médias empresas, justamente as que estão tendo maior dificuldade na formação de seus estoques de milho. As grandes empresas, que dedicam a sua produção na elaboração de industrializados e cortes elaborados, já estão abastecidas, apoiadas na força de seu capital.
Com tudo isso, os integrantes da cadeia da avicultura também acabam no prejuízo, em decorrência da perda da escala produtiva. Vendendo a produção a preços elevados, e expectativa é que quase a totalidade da produção do setor avícola acabe direcionada para a elite da sociedade, em prejuízo da grande massa de consumidores.
Quem diria que todo esse cenário teria como pivô uma inovação tecnológica, semelhante à revolução verde verificada nos anos 60 e 70, que permitiu ao Brasil se tornar um dos maiores produtores de grãos do mundo? Na época, o surgimento de melhores sementes e defensivos agrícolas trouxe ganhos de produtividade aos agricultores e maior capacidade de produzir alimentos em menor área, ajudando a diminuir a fome no mundo.
Nesse prisma, o debate sobre o uso de sementes transgênicas pode ganhar uma nova face. Um estudo do Instituto Internacional de Pesquisas e Políticas Alimentares (IFPRI) divulgado em outubro de 1999, aponta que a população mundial crescerá 32% até 2020, principalmente nos países em desenvolvimento, enquanto a demanda por grãos se elevará em 40%. Essa demanda será atendida em 80% como resultado do aumento de produtividade e não de área cultivada.
O relatório prevê ainda que a demanda por carne avançará em 100%, com igual repercussão sobre a produção de rações animais, principalmente nos países em desenvolvimento. Esses números mostram a dimensão da pressão que a demanda dos consumidores vai exercer sobre os produtos agroindustriais e o quanto os preços podem subir, caso não haja tecnologia para suprir a carência por alimentos.
Levando em conta que nos países subdesenvolvidos a renda da família é em grande parte comprometida com a compra de alimentos, a impressão que fica é que se os preços continuarem a sua escalada, estaremos em um futuro próximo discutindo não os prejuízos econômicos de hoje, mas os problemas sociais decorrentes da banalização da falta de alimentos e da fome no País.
Vale lembrar que toda essa discussão bate à nossa porta pela absoluta falta de política governamental de incentivos à produção e formação de estoques de milho. Se essa postura persistir, boa parte da agroindústria nacional, que depende desse insumo para produzir, gerar empregos e riquezas para o País, pode acabar se tornando inviável.
- PAULO FERREIRA MUNIZ é presidente da Associação dos Abatedouros e Produtores Avícolas do Paraná (Avipar) e vice-presidente região sul da União Brasileira de Avicultura





