TRANSGÊNICOS - 'Brasil está 12 anos atrasado'
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sexta-feira, 07 de março de 2008
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
A recente decisão do governo de liberar o plantio de milho transgênico trouxe à tona novamente a discussão em torno dos alimentos geneticamente modificados. De um lado, ambientalistas radicalmente contra. No outro extremo, as indústrias, totalmente favoráveis.
Para o engenheiro agrônomo Alexandre Nepomuceno, membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), a população ainda está desinformada. Nesta entrevista, ele destaca a importância da engenharia genética em tempos de superaquecimento, enchentes e perdas de reservas naturais.
O Brasil está atrasado, em relação aos transgênicos?
Infelizmente, estamos 12 anos atrasados em relação aos outros grandes países produtores de grãos. O milho Liberty Link, resistente aos insetos, e o milho Guardian, resistente aos herbicidas, tiveram sua produção liberada há duas semanas no Brasil, mas são cultivados há cerca de 10 anos em países como o Canadá, os Estados Unidos e a Argentina.
Esse polêmica toda em torno dos transgênicos envolve jogo de interesses?
Com certeza. Há muita desinformação e um grande jogo de interesses. O que traz a tecnologia do milho resistente a insetos? O fim da aplicação de produtos químicos na lavoura. Os maiores prejudicados, sem dúvidas, são quem produz e vende esses produtos químicos. Então, definitivamente, há interesses, tanto de quem vende a semente como de quem vende o inseticida.
A biotecnologia está presente no dia-a-dia do brasileiro?
Desde 1980, a maior parte da insulina consumida por diabéticos no Brasil é obtida através de organismos geneticamente modificados (OGM). Alguns produtos de prateleira, como o sabão em pó, vêm com enzimas e substâncias químicas obtidas em OGMs. É uma tecnologia que já convive conosco, com potencial tremendo para resolver problemas.
O G-8 e países emergentes debateram a questão do aquecimento global. A biotecnologia pode ajudar a reduzir os efeitos das mudanças de temperatura?
Com o aquecimento global, teremos alteração de muitas áreas recomendadas para o plantio de variadas espécies. Nesse sentido, estamos trabalhando na Embrapa, em parceria com o governo japonês, no desenvolvimento de plantas geneticamente modificadas tolerantes à seca e ao calor.
Em que fase está o projeto?
Estamos em fase de pesquisa, a exemplo de vários institutos mundo afora. Experimentos nos mostraram um gene que aumenta a rapidez e a intensidade de percepção e defesa da planta quando submetida a uma condição de alta temperatura e de seca. Todos os indícios apontam um potencial tremendo.
Seria a ''salvação da lavoura''?
Não. É preciso ir com calma. Não se trata de plantar uma soja no deserto do Saara, mas sim de diminuir as perdas. Em 2004 e 2005, o Rio Grande do Sul perdeu 70% da sua produção por causa da seca. Uma tecnologia como a que estamos pesquisando não extinguiria as perdas, mas reduziria de 70% para 50%, 40%.
Diante dos exemplos, podemos afirmar que a biotecnologia veio para ficar?
Sem dúvidas, veio para ficar e gerar polêmica. Desafio quem mostre algum grande dano que foi causado ao meio-ambiente ou à saúde humana por conta do uso dessa tecnologia. Pelo contrário, os resultados mostram o inverso. De 1999 a 2001, quando a China passou a adotar o algodão transgênico, resistente a insetos, deixou-se de usar alguns milhares de litros de inseticida. Como consequência, observou-se uma grande redução no número de intoxicações agudas de trabalhadores e agricultores, que se dedicam ao trabalho braçal à frente da cultura. Só acho que as pessoas devem tomar cuidado com a fonte de informação e ler cada vez mais, para que muitas besteiras, as quais já li e ouvi por aí, não sejam levadas a sério.


