TRANSFUSÃO DE SANGUE - Risco de contrair HIV no Brasil é 20 vezes maior que nos EUA
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Érika Gonçalves <br> Reportagem Local 
Pesquisa realizada pela Fundação Pró-sangue de São Paulo, entre 2007 e 2008, em três hemocentros de São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco revelou que o risco de contaminação por HIV em transfusões de sangue é de um para cada 100 mil. Nos Estados Unidos essa relação é de um para 2 milhões. A chance por aqui, portanto, é 20 vezes maior.
A hemoterapeuta Ester Sabino, coordenadora da pesquisa, ressalta, no entanto, que o risco é pequeno. Ainda assim, o resultado é preocupante, principalmente porque ainda não foi descoberta a cura da aids.
Ela ressalta que a principal medida é não se usar a doação de sangue para fazer teste do HIV e outras doenças. ''Vai estar submetendo outras pessoas a um risco desnecessário'', alerta.
Como a senhora avalia a taxa de contaminação nas transfusões de sangue no Brasil?
A taxa de transmissão de HIV por transfusão sanguínea é baixa no Brasil. Ela caiu de 160 mil para 100 mil. Esse número é relativamente alto em relação aos Estados Unidos. Mas é baixo. A chance de ganhar na loteria federal é de uma para 75 mil. Uma pessoa tem mais chance de ganhar na loterial do que pegar HIV em uma transfusão.
Mas para quem for contaminado é um problema enorme, correto?
Sim, mas é um a cada 100 mil pessoas. Nos outros países, como na Argentina, na China, nem base existe. Só comparamos com o máximo, com o melhor, não conseguimos comparar com o mesmo nível econômico que o nosso porque eles nem base têm. Nós temos dados, eles não são ruins, o número não é alto, só é mais alto do que o dos Estados Unidos. Mas não é porque o número é baixo que não temos que melhorar.
E por que ainda temos esses problemas?
Existe a janela imunológica do HIV e os testes não detectam o vírus. A janela seria o período entre a infecção pela doença e o momento que aparecem os anticorpos para que sejam detectados pelos testes atuais.
Esse período é de quanto tempo?
Em torno de 20 dias. Esse é o período em que você pode transmitir o vírus sem os exames detectarem. Esse período pode ser diminuído para cinco dias com o uso do teste NAT (Teste de Ácido Nucleico). Mas mesmo com esse teste você não zera a janela.
Qual a vantagem do teste NAT?
Ele detecta o RNA (ácido ribonucleico) do vírus. Mas ele precisa estar em quantidade suficiente para o teste detectar. Às vezes a quantidade é insuficiente para o teste detectar, mas é suficiente para transmitir o vírus pelo sangue.
Quando alguém vai se candidatar para doar sangue, qual o tempo mínimo que tem que aguardar depois de ter um comportamento de risco?
Pedimos que a pessoa fique um ano sem doar. Tem uma série de perguntas que se faz antes da doação para tentar evitar que as pessoas que tenham risco maior de estarem na janela imunológica doem. Pedimos que não procurem o banco de sangue para fazer teste de HIV.
Então um dos fatores para evitar a contaminação é que o doador não omita informações?
Exatamente. O doador tem que responder honestamente às perguntas. Às vezes ele acha que o comportamento é de risco e não é e vice-versa.
Já houve uma melhora em relação à pesquisa anterior. O que falta para melhorar ainda mais?
A introdução do teste NAT, que está a caminho. O Ministério fez os testes no Brasil, está começando a fase de validação do teste. E principalmente falar que é importante que se a pessoa quer fazer teste de HIV, não faça no banco de sangue. Se o motivo de doar é fazer teste, existem muitos postos para isso. Ela vai estar submetendo outras pessoas a um risco desnecessário.


