Transformação invisível
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de janeiro de 1997
Maria Lucia Victor Barbosa 
Folheando por acaso o caderno Painel de Negócios, de 7/1/97, do jornal O Estado de S. Paulo, chamou-me atenção a matéria Pequenas crescem com parcerias. Isso aconteceu não porque me interesso por negócios, uma vez que não os possuo, ou de parcerias, pois não tenho como fazê-las. Entretanto, o conteúdo do texto me colocou diante de uma descoberta sociológica. Foi, digamos, como se eu fosse uma arqueóloga às avessas. Ao invés de remexer o passado, escavando areias do deserto para descobrir modos de vida e comportamentos de civilizações que não existem mais, percebi, isso sim, naquelas linhas escritas em português correto e não em hiéroglifos, o afluir de uma mentalidade inédita, que no nosso país será imprescindível para alterar valores, atitudes e comportamentos no futuro. Vejamos, então, o que apareceu de tão interessante na matéria:
Logo em baixo do título, podia-se ler: Empresários investem em relações de confiança com a concorrência e trocam clientes para garantir vendas. Notemos que confiança é a palavra chave. É também valor que desvenda um novo modo de se relacionar num país marcado pela cultura da malandragem, do dá-se um jeito e da arte de passar os outros para trás. E confiança leva à união em parcerias, pois conforme o texto: A postura de somar para multiplicar está dando certo entre muitas pequenas empresas que se deixaram seduzir pelas parcerias.
Confiança, união e criatividade, passam a constituir, portanto, o tripé capaz de sustentar pequenos empresários neste atual e admirável mundo novo composto de tecnologia, competência e concorrência. Mas como o locatário do mundo é o mal, para que tudo dê certo, é preciso estar atento a certas regras, tais como: * O parceiro escolhido deve ser de plena confiança. * O acordo deve estar focado em alguma vantagem competitiva, como expansão de mercado ou estabilidade. * É aconselhável respaldar o pacto juridicamente. * É válido consultar os funcionários para saber como é vista uma parceira dentro da empresa. * Integrar os empregados das empresas parceiras é importante.
De todo modo, o fato de alguns empresários já estarem substituindo a concorrência predatória pela união é um marco notável, sobretudo se levarmos em conta nossa formação histórica e a visão de mundo que daí decorreu. Lembremos, que por detrás de uma aparente rigidez moral, prosperou na colônia lusitana, como de resto nas espanholas, a plasticidade de costumes, onde o suborno, a ganância, a corrupção e a mentira se converteram em virtudes a serem exaltadas e comungadas por toda a sociedade.
Tão pouco, desenvolvemos o espírito associativo. Como disse Anchieta: No Brasil cada família é uma república. E além das repúblicas de familiares, onde campeou o individualismo, sempre fomos divididos também em repúblicas de amigos. Isso explica porque até hoje constumamos a nos fechar em grupos familiares ou de amizade, onde todas as mazelas, mas também todas as facilidades e todos os entendimentos são possíveis. Ancorados nesses grupos internos, olhamos com certa hostilidade os grupos externos, desconfiando daqueles que não pertencem ao nosso círculo primário de relacionamento.
Essa situação acaba por engendrar a mais fina parte da malandragem ou do mandonismo. Vence quem engana mais. Triunfa quem manda. Ou que finge que manda, jactando-se de possuir riquezas, cargos de poder e relacionamentos importantes que na verdade não possue. Assim, o mundo passa a pertencer aos espertos.
Nesse mundo da esperteza onde se começa colando na escola, passar depois cheque sem fundo é algo fácil, seguindo-se daí coisas mais cabeludas. Ao mesmo tempo, esse universo é também virtual, em vez de real, na medida em que a simulação constitui a suprema arte de enganar. Simula-se, por exemplo, que os concursos públicos são para valer, que as escolas ensinam alguma coisa, que a lei é cumprida com rigor, que os cidadãos são caridosos e corretos nos negócios e que autoridades são íntegras e competentes.
Nesse fantasioso mundo se insere o planeta da política, constituído como não poderia deixar de ser de características universais, e ao mesmo tempo peculiarmente brasileiras. Aliás, como bem afirmou Caio Prado Júnior, referindo-se à política aqui implantada desde o ínicio da colonização, era antes de tudo um negócio do Rei. Mais tarde veio a politicagem do voto negociado e das fraudes constantes, e a isso seguiram-se negócios escusos e malandros, não só na época das eleições, como no trato com a coisa pública. Só que política como negócio do Rei, foi e é, numa escala diferente, praticada também pelos súditos, aos quais interessa, essencialmente, levar vantagens com relação ao Estado paternalista e patrimonialista.
Exatamente por causa de tudo isso, é importante descobrir que no país de Macunaíma começa a se processar uma transformação invisível, da qual emergem as raras virtudes da confiança, da união e da criatividade. É dessa mudança que estamos precisando para nos desenvolvermos completamente.


