Comemoramos este ano o 50º aniversário de criação da Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Originalmente denominada Campanha de Aperfeiçoamento do Pessoal do Ensino Superior, a Capes teve como primeiro secretário-geral o notável educador Anísio Teixeira, que a transformaria, ainda em 1951, no órgão que persiste até os dias atuais. A Capes tinha como objetivos investir na formação dos quadros universitários e conceder bolsas no País e no exterior.
Seu surgimento ocorreu motivado pelo avanço do processo de industrialização vivenciado no segundo governo Vargas, e a consequente necessidade de formação de pessoal de alto nível. Ao mesmo tempo, grande parte da comunidade científica lutava por uma ampla reforma universitária, ampliando assim suas condições de trabalho, visando solidificar e tornar mais autônomo o conhecimento científico.
Essas duas tendências divergentes influenciavam diferentes correntes do ensino superior. Paralelamente à implantação da Capes, foi criado, também em 1951, o Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) objetivando a promoção da pesquisa científica e tecnológica nuclear no País, com atividades voltadas para as áreas das ciências exatas e biológicas, através do fornecimento de bolsas e auxílio para a aquisição de equipamentos para pesquisa, e da criação e manutenção de institutos especializados.
As divergências entre a comunidade científica e os interesses governamentais influenciaram o processo de organização da Capes, visto que suas diretrizes foram fruto de um compromisso entre as duas tendências, tendo Anísio exercido o papel de mediador. Ele desempenhou importante papel no processo de implantação da pós-graduação no Brasil, garantindo o desenvolvimento da pesquisa científica na universidade, em especial na pós-graduação.
É certo que muitas transformações ocorreram nessa área nesses 50 anos. Multiplicaram-se os cursos de pós-graduação lato sensu e strito sensu .O MEC exige que 30% dos professores de graduação sejam mestres ou doutores. Busca, com essa medida, contribuir para a elevação do nível do ensino superior.
A Unesco, em sua Declaração Mundial sobre Educação Superior no Século XXI: Visão e Ação (1998), quando trata das missões e funções da educação superior, recomenda que a educação superior deve ampliar sua contribuição para o desenvolvimento do sistema educacional como um todo, especialmente por meio do melhoramento da formação do pessoal docente, da elaboração de planos curriculares e da pesquisa sobre a educação. Porém, assim como há 50 anos, urge à universidade repensar-se e redefinir-se, superando a enorme distância que ainda hoje a separa das necessidades reais da sociedade. É válida a concepção de Anísio de uma universidade enraizada na sociedade.
Temos, cada vez mais, professores mestres e doutores, porém tal fato não exime a universidade de questionar de que forma vêm contribuindo para a manutenção da estrutura social vigente. Em diversas ocasiões, ela tem trabalhado para a manutenção da ordem estabelecida hegemonicamente, correndo o risco de ficar à margem do processo de mudança que esta própria sociedade capitalista, de modo contraditório, tem estimulado.
É necessário buscar caminhos que sinalizem para uma educação alicerçada na ação consciente dos professores e que despertem nos alunos seu potencial de intervenção na realidade. Poucos se dão conta da necessidade de superar paradigmas que se opõem a uma renovação para a atualização e ampliação do papel da universidade frente aos problemas da população.
Temos pela frente o desafio de diminuir a distância da universidade em relação à sociedade, assim como combater a separação entre produção e transmissão de conhecimento, pesquisa e ensino, formação de cientistas e de professores, tão frequentemente presente nas nossas universidades.
Os professores universitários têm a responsabilidade ética e moral de formar futuros profissionais competentes, técnica e politicamente, para atuarem nas comunidades onde estarão inseridos. Caso contrário, corremos o risco de constatar que a Universidade persiste na formação de profissionais que não se identificam como transformadores de uma realidade concreta.
- MAUREN T. G. MENDES TACLA, doutoranda, é professora universitária em Londrina

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