TRANSFERÊNCIA DE RENDA - O lucro que não é lucro
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sábado, 15 de setembro de 2007
Reportagem Local 
A agricultura brasileira está num processo de recuperação das perdas que sofreu nas safras 2004, 2005 e 2006. Mas os ganhos poderiam ser maiores se o dólar não estivesse tão desvalorizado e se a política do setor tivesse regras mais claras. É o que se conclui da entrevista exclusiva do presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Ágide Meneguette.
Entre estiagem no campo, carga tributária e juros, como a agricultura está se preparando para a nova safra?
A próxima safra tem tudo para ser um novo recorde. Os preços internacionais para os grãos estão excelentes, como nunca estiveram. Imagino o quanto estaria ganhando o produtor se o câmbio não estivesse tão desajustado. Com o dólar em baixa, a conversão dos preços internacionais para o real proporciona ao produtor brasileiro preços quase regulares, um pouco acima da média dos últimos anos, suficiente para que o produtor tenha uma renda. A política cambial do governo federal está roubando do produtor uma excelente oportunidade para recompor o seu capital perdido nos últimos três anos.
A redução de custos é uma necessidade. Isso afeta a liquidez do setor. Há menos dinheiro circulando no mundo do agronegócio?
Como reduzir custos de produção se os preços dos insumos estão em alta? Não tem jeito. A nossa sorte na última safra não foi São Pedro, se bem que as chuvas foram regulares. A nossa sorte foi ''são'' George W. Bush, que lançou o programa do etanol de milho nos EUA e praticamente valorizou o preço de um grande número de commodities. Com isso os nossos produtores puderam vender suas produções em melhores condições, mas continuam carregando os prejuízos de 2004, 2005 e 2006.
Esse cenário afeta a produtividade da safra 2007/2008?
Como os preços internacionais estão ótimos e compensam a queda do dólar, acho que a próxima safra pode ter uma boa produção e uma boa produtividade.
Dezenas de cidades do interior dependem da agricultura. O comércio sente essa recessão. Como contornar essa dificuldade?
O desastre já ocorreu nesses três últimos anos, com a crise de renda da agropecuária. O que dá agora é para remediar em parte, com o alongamento da dívida e a implantação de uma política agrícola decente, com seguro que garanta a renda e não apenas o financiamento, melhoria da infra-estrutura que está sucateada, nova política cambial que não penalize as exportações e assim por diante.
O agricultor está na defensiva e reduz investimentos?
O problema é que, com a acumulação de dívidas, os produtores estouraram o limite da capacidade de endividamento e, por isso, não conseguem crédito. Prova disso é que nas duas últimas safras sobraram recursos a juros fixos de 8,75%, fato que nunca havia ocorrido antes. Há um receio em investir, justificado diga-se de passagem, em face do que ocorreu recentemente. Mesmo assim, a indústria de máquinas e implementos aumentou sua produção.
Na negociação das dívidas de 2007, o governo anunciou medidas que na prática não se confirmaram. A Faep alertou o governo sobre o assunto?
Mandei um expediente para o presidente Lula e para os ministros da área econômica, além de pedir a intervenção de nossa bancada federal, demonstrando que o que havia sido prometido não havia sido cumprido com as resoluções do Conselho Monetário. Atualmente está sendo estudada a retificação dessas resoluções e negociado um alongamento globalizado para as dívidas. As perdas nesses três anos foram tantas e a acumulação de dívidas de tal ordem, que não dá para pagar num prazo pequeno. A questão é estratégica. Afinal é com base na agropecuária que o agronegócio vem proporcionando saldos positivos na balança comercial, sem os quais o Brasil já teria afundado. Assim, a ajuda que governo federal deverá dar aos produtores rurais não é uma questão apenas de justiça, mas de interesse do país.


