O título deste artigo originalmente denominou um trabalho produzido pelo Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, no ano 1997, para debater a questão da luta antimanicomial no Brasil. Tomei-o por empréstimo.
A revista Contato, Edição nº 86, do Conselho Regional de Psicologia do Paraná resgatou o texto para fomentar o debate em torno de outra questão emergente que é internação compulsória de dependentes de crack. A matéria parte da reflexão do cientista social, mestre em Antropologia Social da USP, e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Maurício Fiore, que diz que ‘‘interferir nesse difícil contexto de vida, com adoção de políticas de reinserção no mercado de trabalho, de reforço dos vínculos comunitários, de educação formal, de acesso aos cuidados básicos de higiene e saúde, entre outras ações, é parte fundamental de uma política que, de fato, esteja preocupada em cuidar dessas pessoas e não apenas tirá-las de nossas vistas’’.
Após ler essas palavras concluímos que nesse contexto precisamos adaptar o velho chavão que diz que ‘‘prevenir é melhor que remediar’’ para ‘‘prevenir é melhor que trancar’’. Mas essa, infelizmente, não é a cultura do nosso Brasil e não é assim que agem os nossos governantes. Medidas sanitaristas ou jurídico/policialescas sempre são invocadas para sanar danos sociais como os criados pelo uso do crack, o que na opinião de especialistas é um engodo, pois, como argumentam, o SUS não tem estrutura para atender nem a demanda convencional de internações de dependentes, que dirá da demanda de internações compulsórias que a nova ‘‘moda’’ poderá produzir.
É mesmo paradoxal! Se por um lado os manicômios são gradativamente esvaziados com a adoção de políticas humanizadas de tratamento dos doentes mentais, por outro as clínicas que atendem a dependentes químicos ficam abarrotadas, numa reedição dos famigerados ‘‘juquiris’’. Aliás, a sociedade sempre encontra seus bodes expiatórios, rotulados de ‘‘loucos’’, nocivos à sociedade, os quais precisam ser expurgados como forma de redimir a culpa que é de todos. Assim foi ao longo da história.
Os ‘‘endemoniados’’, presos, torturados e queimados pela Santa Inquisição, as histéricas de Salpêtrière, vítimas do preconceito sexual e até parcela dos nossos presos políticos que tiveram o infortúnio de serem sedados e trancafiados em manicômios, para só saírem mortos.
Até o final dos anos setenta não era raro que pais levassem seus filhos adolescentes para serem internados em hospitais psiquiátricos, disfarçadamente chamados de Clínica de Repouso Mental, às vezes apenas por ouvirem boatos de que fumavam maconha. Vale a pena assistir ao filme ‘‘Bicho de Sete Cabeças’’, estrelado por Rodrigo Santoro, para compreender a tragédia que isso representou. Hoje quem incomoda a sociedade são os fumadores de crack. Chegou a hora de varrê-los!
Mais uma vez um problema de natureza social está sendo tratado como se fosse questão de segurança pública. É fato que alguns dependentes engrossam as estatísticas de violência, mas são casos pontuais e produzidos pelo próprio meio em que vivem. Em contextos diferentes e com oportunidades diferentes, essas mesmas pessoas poderiam responder de forma construtiva à sociedade.
Não crer nessa possibilidade é descrer na capacidade de autorregulação dos seres humanos, é aceitar o postulado preconceituoso do determinismo maniqueísta que põe de um lado os que nascem para o bem, as pessoas de sucesso financeiro e, de outro, os que nascem para o mal, os degradados pelo uso do crack. Uma dicotomia que reduz o ‘‘humano’’ à condição de ‘‘coisa’’.

JAIR QUEIROZ é psicólogo clínico em Londrina

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