TRAGÉDIAS NATURAIS - Paraná não está preparado para enfrentar desastres
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de março de 2010
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Temos que garantir segurança no momento de maior dificuldade
Nossa área não tem estrutura geológica para ter um terremoto devastador
No ano 2000, depois de ser requisitado diversas vezes para prestar ajuda com seus conhecimentos científicos após catástrofes ocorridas no Paraná, o geólogo Renato Lima, 53 anos, então professor do Núcleo de Meio Ambiente da Universidade Federal do Paraná (UFPR) resolveu fundar o Centro de Apoio Científico em Desastres (Cenacid), que funciona dentro da própria universidade.
Rapidamente o trabalho do Centro passou a ser conhecido e reconhecido nacionalmente e até fora do país, inclusive pela Organização das Nações Unidas (ONU) que o premiou com o reconhecimento como ''de excelência na resposta a desastres''.
Recentemente Lima esteve auxiliando no projeto de reconstrução do Haiti, trabalhou nos deslizamentos de terra dos primeiros dias de 2010 em Angra dos Reis (RJ) e, logicamente, nas enchentes do Norte Pioneiro do Paraná, no fim do mês de janeiro.
Nesta entrevista à FOLHA, ele diz que o Paraná é um dos estados brasileiros que mais sofrem com catástrofes naturais e que ainda não está preparado para enfrentá-las.
Dentro do cenário brasileiro, o Paraná é considerado muito atingido por desastres?
Sim. Nós temos uma publicação do Cenacid, o Mapa de Desastres Significativos no Brasil, no qual o nosso Estado figura sempre entre os cinco primeiros colocados. O Paraná é atingido por inundações, deslizamentos, tempestades e tem problemas, com menor frequência, com tremores, sismos, secas, solapamentos e erosão.
E o Paraná está bem preparado para enfrentar isso tudo?
De maneira geral, não. As comissões municipais de Defesa Civil não estão preparadas na grande maioria dos municípios. Elas não têm treinamento, às vezes estão constituídas no papel, mas não de fato. Temos que nos mobilizarmos para mudar isso e garantir ao cidadão segurança exatamente no momento em que ele está em maior dificuldade.
Mas dos 399 municípios do Estado a imensa maioria é pequena e depende de recursos do Fundo de Participação dos Municípios para investimentos. O que essas cidades podem fazer para montar uma Defesa Civil de qualidade?
Vamos falar primeiro dos municípios grandes. A minha sugestão para eles é manter uma Defesa Civil profissional. Não pode ser uma estrutura diferente a cada governo municipal. Geralmente é isso que acontece: muda o prefeito, muda também o coordenador municipal de Defesa Civil e a sua equipe. Dessa forma, nunca há uma capacidade instalada, pois os desastres não ocorrem no mesmo lugar a cada ano. É preciso estar sempre preparado.
Para os pequenos municípios, a sugestão é formar cooperativas de Defesa Civil e buscar um grande envolvimento da população. Pois os municípes, organizados, é que vão prestar o socorro, e a cooperativa vai servir para comprar os equipamentos necessários. Talvez fique caro para um município pequeno comprar um número grande de botas que seriam necessárias em uma emergência, mas se ele se juntar com outros da mesma região fica mais fácil comprar. Ninguém deve imaginar que o seu município ou o seu bairro estejam livres de sofrer um desastre.
O senhor disso que até tremores acontecem no Paraná. Há o risco de ocorrer um grande terremoto por aqui?
Os tremores que nos atingem alcançam uma magnitude de pequena a média. Há menos de cinco anos tivemos um em Jaguariaíva (Norte Pioneiro) que chegou a derrubar paredes, provocou deslizamentos, interditou algumas pistas. Cascavel (Oeste) sentiu os reflexos dos terremotos no Chile. Em Curitiba, há nove anos, também sentimos tremores. De tempos em tempos registramos sismos no Estado. Contudo, nossa área não tem estrutura geológica para ser acometida por um terremoto devastador. Nós estamos na parte estável da placa tectônica, bem no centro dela. As regiões que sofrem abalos sísmicos maiores estão nas bordas dessas placas.
Como foi a experiência de trabalhar no Haiti?
Foi de grande aprendizagem. A situação lá é muito complexa. Em determinados momentos parecia que não tinha solução. Eu parava para pensar e dizia: ''Temos experiência e vamos encontrar alternativas''. Até hoje continuamos envolvidos com o que está contecendo por lá, fazendo recomendações para a Embaixada do Brasil. Ficou a lição de que, mesmo nas piores situações, temos que encontrar a solução e caminhar em direção a ela.


